Terra e Tempo. Dixital Galego de pensamento nacionalista.
08-03-2018

Desde que temos memória a nossa situação segue a ser a mesma

Cercadas nos valados ideológicos do domínio

CRUZ MARTÍNEZ

De facto, o tempo não transforma uma vida de humilhação, de escravidão.
O passado é excessivamente contíguo ao presente e semelha difícil fugir do terror.

Desde que temos memória a nossa situação segue a ser a mesma. Nada cambia. Contudo persiste no ambiente um halo de preconceitos e desigualdade que nos estrangula, avassala-nos baixo os efeitos duma falsa liberdade. A liberdade que anelamos desde sempre, mas não conseguimos vislumbra-la de jeito claro, diáfano. E isto sucede, porque as irredentas subsistimos num estado invariável, sem mudança. Nesta altura seguimos suportando a arbitrariedade dos estratos sociais mais râncidos. Os mesmos dum tempo pretérito, que se prorroga infortunadamente in hoc tempore.

Realmente não se pode obviar o submetimento ao que estamos subjugadas. A cativação segue existindo. Em moitas ocasiões o cativeiro é originado baixo a camuflagem enganosa do amor romântico. Algo que é tão perigoso que pode desvirtuar o conceito de amar e trocar a um ser análogo numa coisa, numa propriedade. Para o machismo semelha que fomos concebidas unicamente para a união canónica, com o desempenho estrito do filoprogenitivo.

A nossa existência segue marcada pelos estigmas de antonte. Permanecemos vivendo ancoradas num protótipo de sociedade, pensada, criada unicamente e exclusivamente para o homem, onde o papel das mulheres segue a ser secundário, subordinado aos desejos e decisões dum amo. Obstinam-se em apagar as nossas vozes, travam-nos com os grilhões da adulação ou da indiferença. Demasiadas vezes a nossa mensagem fica extraviada na surdez, na mudez propícia.

Quotidianamente saímos à rua com o medo refletido nas nossas faces. Nos cantos dos edifícios emergem olhos. Põem-se em pé os monstros que nos acossam. A imensa escuridade despendura fobias a través das pedras que nos fecham nas cruéis prisões de género. A lua às vezes, é um enorme vestido de algodão cingido, cosido à carne, ensanguentado. Múltiplos alfinetes tapam-nos a boca. Não podemos articular palavra. Os fonemas permanecem afogados na boca do estômago e não podemos evitar perceber que seguimos sendo as vítimas perfeitas do patriarcado. Incompreensivelmente permanecemos maniatadas, impotentes. Cercadas nos valados ideológicos do domínio. Levitando num céu anuviado pelo machismo.

Portanto, pôr-se a andar, lutar é de necessidade. Por nós, pelas irmãs que quedaram no caminho, que já não estão.


Poema do meu livro ¨ Stand by, num estado de emergência

[ Alalá Demente ]


_ Nua estou
fronte ao triste ocaso dum poema
Só me saem números grafitados
acima da friúra da madeira
Por tanto, marco o 016 e
denuncio o homicídio iminente da borboleta