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04-04-2021

Depois de uma tripla bofetada no poder hegemónico dada pela Rússia, China e Irão, temos agora um novo tabuleiro de xadrez geopolítico

Bem-vindo à chocante e apavorante geopolítica do século XXI

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PEPE ESCOBAR



Levou 18 anos após [a operação] Choque e Pavor ser desencadeada no Iraque para o Poder Hegemónico ficar implacavelmente chocado e apavorado por uma dupla diplomática da Rússia e China virtualmente simultânea.

Este é um momento de real mudança de jogo que não pode deixar de ser suficientemente enfatizado. A geopolítica do século XXI nunca mais será a mesma.

No entanto, foram os EUA quem primeiro cruzou o Rubicão diplomático. Os manipuladores por detrás do holograma Joe "Farei o que você disser para fazer Nance" [1] Biden, sussurrou ele ao telefone a fim de estigmatizar o presidente russo Vladimir Putin como um "assassino" sem alma, em meio a uma entrevista soft.

Nem mesmo no auge da Guerra Fria as superpotências recorreram a ataques pessoais. O resultado de tal erro surpreendente foi colocar praticamente toda a população russa a apoiar Putin – porque isso foi percebido como um ataque contra o Estado russo. Então veio a resposta fria, calma, controlada – e bastante diplomática de Putin, que precisa ser cuidadosamente ponderada. Essas palavras afiadas como uma adaga são, sem dúvida, os cinco minutos mais devastadoramente poderosos na história das relações internacionais pós-verdade.

Em For Leviathan, it's so cold in Alaska , prevíamos o que poderia acontecer na cimeira EUA-China num hotel decadente em Anchorage, com tigelas baratas de massa instantânea como bónus extra.

O protocolo diplomático milenar da China estabelece que as discussões comecem em torno de um terreno comum – que é então exaltado como sendo mais importante que os desacordos entre as partes em negociação. Esse é o cerne do conceito de "não perder a face". Só depois as partes discutem as suas diferenças.

No entanto, era totalmente previsível que um bando de americanos amadores, sem tacto e despistados quebrassem estas regras diplomáticas básicas para mostrar "força" à claque caseira, destilando a proverbial ladainha sobre Formosa, Hong Kong, Mar do Sul da China, "genocídio" de uigures.

Oh céus! Será que não havia um único sujeito no Departamento de Estado com um conhecimento mínimo do Leste Asiático para advertir os amadores de que não se poderiam envolver impunemente em complicações impunemente com o formidável chefe da Comissão de Relações Exteriores do Comité Central do Partido Comunista da China, Yang Jiechi?

Visivelmente surpreendido, mas controlando a sua exasperação, Yang Jiechi ripostou . E os tiros retóricos foram ouvidos em todo o Sul Global.

Eles tiveram de incluir uma lição básica de boas maneiras: "Se você quer lidar connosco da maneira adequada, vamos ter um pouco de respeito mútuo e fazer as coisas da maneira certa". Mas o que se destacou foi um diagnostico contundente e conciso que mesclou história e política:

"Os Estados Unidos não estão qualificados para falar com a China de maneira condescendente. O povo chinês não aceitará isso. Para lidar com a China o diálogo deve ser baseado no respeito mútuo e a história provará que aqueles que pretendem estrangular a China sofrerão no final".

E tudo isso traduzido em tempo real pelo jovem, atraente e ultra-habilidoso Zhang Jing – que inevitavelmente se tornou uma superestrela, da noite para o dia na China, colhendo mais de 400 milhões de acessos no Weibo .

A incompetência do braço "diplomático" do governo Biden-Harris é inacreditável. Usando uma manobra Sun Tzu básica, Yang Jiechi virou a mesa e expressou o sentimento predominante da esmagadora maioria do planeta. Arrume a sua unilateral "ordem baseada em regras". Nós, as nações do mundo, privilegiamos a Carta da ONU e a primazia do direito internacional.

Portanto foi isto que a dupla Rússia-China conseguiu quase instantaneamente: de agora em diante, o Poder Hegemónico deve ser tratado, em todo o Sul Global, com, na melhor das hipóteses, desdém.

Um processo histórico inevitável

Antes do Alasca, os americanos iniciaram uma ofensiva de charme no Japão e na Coreia do Sul para "consultas". Isso é irrelevante. O que importa é o pós-Alasca e a reunião crucial dos ministros das Relações Exteriores Sergey Lavrov-Wang Yi em Guilin.

Lavrov, sempre imperturbável, esclareceu numa entrevista aos media chineses como a parceria estratégica Rússia-China vê o atual desastre do comboio diplomático dos EUA: Na verdade, eles perderam em grande parte a habilidade da diplomacia clássica. A diplomacia trata das relações entre as pessoas, a capacidade de se ouvirem uns aos outros e de encontrar um equilíbrio entre interesses conflituantes. Estes são exatamente os valores que a Rússia e a China estão a promover na diplomacia.

A consequência inevitável é que a Rússia-China devem "consolidar a sua independência. Os Estados Unidos declararam como meta limitar o avanço tecnológico da Rússia e da China. Portanto, devemos reduzir nossa exposição a sanções, fortalecendo a nossa independência tecnológica e mudando o sistema pagamentos para moedas nacionais e internacionais diferentes do dólar. Precisamos deixar de usar sistemas de pagamentos internacionais controlados pelo Ocidente".

A Rússia e a China identificaram claramente, como Lavrov apontou, como os "parceiros ocidentais" estão "a promover a sua agenda ideológica com o objetivo de preservar o seu domínio, impedindo o progresso dos outros países. As suas políticas vão contra os desenvolvimentos internacionais objetivos e, como eles costumavam dizer por vezes, estão do lado errado da história. O processo histórico virá por si, não importa o que aconteça".

Como severa apresentação de um "processo histórico" inevitável, nada ficaria mais claro do que isto. E, previsivelmente, não demorou muito para que os "parceiros ocidentais" recaíssem – em quê mais – no seu velho saco de truques das sanções

Aqui vamos nós de novo: uma "aliança" dos EUA, Reino Unido, UE e Canadá sancionando autoridades chinesas selecionadas porque, nas palavras de Blinken, "a RPC [República Popular da China] continua a cometer genocídio e crimes contra a humanidade em Xinjiang". A UE, o Reino Unido e o Canadá não tiveram coragem de sancionar um jogador-chave: o chefe do partido em Xinjiang, Chen Quanguo , que é membro do Politburo. A resposta chinesa teria sido – economicamente – devastadora.

Ainda assim, Pequim contra-atacou com suas próprias sanções – visando, de maneira crucial, o fanático evangélico de extrema-direita alemão que se faz passar por "académico" e que produziu a maior parte da "prova" completamente desmascarada de um milhão de uigures mantidos em campos de concentração.

Mais uma vez, os "parceiros ocidentais" são impermeáveis à lógica. Somando-se ao já terrível estado das relações UE-Rússia, Bruxelas opta por também hostilizar a China com base num único dossier falso, entrando diretamente na agenda não exatamente secreta de Dividir para Reinar do Poder Hegemónico.

Missão (quase) cumprida: diplomatas de Bruxelas dizem-me que o Parlamento da UE está prestes a recusar-se a ratificar o acordo comercial China-UE cuidadosamente negociado por Merkel e Macron. As consequências serão imensas. Portanto, Blinken terá motivos para se alegrar quando se encontrar com diversos eurocratas e burocratas da NATO, antes da cimeira da NATO.

É preciso aplaudir a ousadia dos "parceiros ocidentais". Já se passaram 18 anos desde o "Choque e Pavor" – o início do bombardeamento, invasão e destruição do Iraque. Já se passaram 10 anos desde o início da destruição total da Líbia pela NATO e seus GCC minions [2 , com Obama-Biden "comandando por trás". Já se passaram 10 anos desde o início da destruição selvagem da Síria por procuração com jihadistas disfarçados de "rebeldes moderados".

No entanto, agora os "parceiros ocidentais" estão muito mortificados pela situação dos muçulmanos na China Ocidental.

Pelo menos existem algumas fissuras dentro do circo ilusionista da UE. Na semana passada, o Círculo de Reflexão Conjunta das Forças Armadas francesas (CRI) – na verdade, um grupo de reflexão independente de ex-altos oficiais – escreveu uma surpreendente carta aberta para o secretário-geral de papelão da NATO, Stoltenberg, acusando-o de facto de se comportar como um fantoche americano com a implementação do plano NATO 2030. Os oficiais franceses chegaram à conclusão correta: a combinação EUA/NATO é a principal causa das relações terríveis com a Rússia.

Os "Idos de Março" [3]
 
Enquanto isso, a histeria das sanções avança como um comboio em fuga. Biden-Harris já ameaçaram impor sanções extras às importações de petróleo do Irão pela China. E há mais a caminho – na produção industrial, tecnologia, 5G, cadeias de fornecimentos, semicondutores.

E, no entanto, ninguém está a tremer nas suas botas. Bem em linha com a Rússia-China, o Irão intensificou o jogo, com o aiatola Khamenei emitindo as diretrizes para o retorno de Teerão ao JCPOA.


1. O regime dos EUA não está em posição de fazer novas exigências ou mudanças em relação ao acordo nuclear.
2. Os EUA estão mais fracos hoje do que quando o JCPOA foi assinado.
3. O Irão está numa posição mais forte agora. Se alguém pode impor novas exigências, é o Irão e não os EUA.

E com isso temos uma bofetada tripla da Rússia-China-Irão no Poder Hegemónico.

Na nossa última conversa/entrevista, lançada num pacote de vídeo + transcrição, Michael Hudson – indiscutivelmente o maior economista a nível mundial – atingiu o cerne da questão :

A luta contra a China, o medo da China é que não podem fazer com a China, o que fizeram com a Rússia. A América adoraria que houvesse uma figura na China como Yeltsin para dizer, vamos dar-lhes todos os caminhos de ferro que construímos, o comboio de alta velocidade, vamos dar-lhes a riqueza, vamos dar todas as fábricas a indivíduos e deixa-los gerir tudo e, depois, vamos pedir-lhes dinheiro emprestado ou vamos poder compra-los e então podemos controlá-los financeiramente.

Mas a China não está a deixar isso acontecer. E a Rússia impediu que isso acontecesse. E a fúria no Ocidente é que, de alguma forma, o sistema financeiro americano é incapaz de se apossar dos recursos estrangeiros, da agricultura estrangeira. Restam apenas meios militares para capturá-los, como vemos no Médio Oriente. Como vemos agora na Ucrânia.

Para continuar. Da forma que está, todos devemos certificar-nos que os "idos de março" – na versão de 2021 – configuraram um novo tabuleiro de xadrez geopolítico. A dupla hélice Rússia-China em comboio de alta velocidade deixou a estação – e não há como voltar atrás.

NT
[1] Nance: Nancy Pelosi, presidente da Câmara dos Representantes

[2] GCC: Gulf Cooperation Council, Conselho de Cooperação do Golfo

[3] Idos de Março: Data do assassínio de Júlio Cesar, em 44 a.C.




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