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14-12-2020

A economia política da Era Digital permanece virtualmente terra incógnita

Nenhuma escapatória do nosso mundo tecno-feudal

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PEPE ESCOBAR


A economia política da Era Digital permanece virtualmente terra incógnita. Em Technoféodalisme , publicado três meses atrás em França (ainda não há tradução), Cedric Durand, economista da Sorbonne, efectua um serviço público crucial pois examina a nova Matrix que controla todas as nossas vidas.

Durand coloca a Era Digital no contexto mais vasto da evolução histórica do capitalismo a fim de mostrar como o consenso de Washington acabou por ser metastaziado no consenso de Silicon Valley. Numa reviravolta deliciosa, ele baptiza este novo bosque como a "ideologia californiana".

Estamos longe do Jefferson Airplane [1] e dos Beach Boys; é mais como a "destruição criativa" de Schumpeter com esteróides, completada com "reformas estruturais" estilo FMI enfatizando a "flexibilização" do trabalho e a total marquetização/financiarisação da vida quotidiana.

De modo crucial, desde o início a Era Digital foi associada à ideologia da direita. A incubação foi fornecida pela Fundação Progresso e Liberdade ( Progress and Freedom Foundation, PFF ), activa de 1993 a 2010 e convenientemente financiada, entre outros, pela Microsoft, At&T, Disney, Sony, Oracle, Google, e Yahoo.

Em 1994, a PFF realizou uma conferência pioneira em Atlanta que acabou por conduzir a uma Carta Magna seminal: literalmente, o Cyberspace and the American Dream: a Magna Carta for the Knowledge Era (Ciberespaço e o Sonho Americano: uma Carta Magna para a Era do Conhecimento), publicada em 1996, durante o primeiro mandato Clinton.

Não por acaso, a revista Wired foi fundada, tal como a PFF, em 1993, tornando-se instantaneamente o porta-voz da "ideologia californiana".

Entre os autores da Magna Carta descobrimos o futurista Alvin "Choque do Futuro" Tofler e o antigo conselheiro científico de Reagan, George Keyworth. Antes de quaisquer outros, eles já estavam a conceptualizar "o ciberespaço como um ambiente biolectrónico que é literalmente universal". Sua Magna Carta era o mapa privilegiado para explorar a nova fronteira.

Aqueles heróis randianos

Também não por acidente, a guru intelectual da nova fronteira foi Ayn Rand e a sua dicotomia bastante primitiva entre os "pioneiros" e a multidão. Rand declarava que o egoísmo é bom, o altruísmo é mau e a empatia é irracional.

Quando se trata dos novos direitos de propriedade do novo Eldorado, todo o poder deve ser exercido pelos "pioneiros" do Vale do Silício, um bando de Narcisos apaixonado pela sua imagem espelhada de superiores heróis randianos. Em nome da inovação, deveriam ser autorizados a destruir quaisquer regras estabelecidas, num alvoroço schumpeteriano de "destruição criadora".

Isso levou ao nosso ambiente actual, em que a Google, Facebook, Uber e companhia podem ultrapassar qualquer quadro legal, impondo as suas inovações como um facto consumado.

Durand vai ao cerne da questão quando trata da verdadeira natureza da "dominação digital": a liderança estado-unidense nunca foi alcançada devido às forças de mercado espontâneas.

Exactamente pelo contrário. A história do Vale do Silício está absolutamente dependente da intervenção estatal – especialmente via complexo industrial-militar e complexo aero-espacial. O Centro de Investigação Ames, um dos melhores laboratórios da NASA, encontra-se em Mountain View. Stanford foi sempre premiada com sumarentos contratos de investigação militar. Durante a II Guerra Mundial, a Hewlett Packard, por exemplo, florescia graças à sua electrónica utilizada para fabricar radares. Ao longo da década de 1960, os militares americanos compraram a maior parte da ainda incipiente produção de semicondutores.

The Rise of Data Capital , um relatório de 2016 da MIT Technology Review produzido "em parceria" com a Oracle, mostrou como as redes digitais abrem o acesso a um novo subsolo virgem repleto de recursos: "Aqueles que chegam primeiro e assumem o controlo obtêm os recursos que procuram" – sob a forma de dados.

Assim, tudo, desde imagens de videovigilância e bancos electrónicos até amostras de ADN e bilhetes de supermercado, implica alguma forma de apropriação territorial. Aqui vemos em toda a sua glória a lógica extractivista embutida no desenvolvimento da Big Data.

Durand dá-nos o exemplo do Android a fim de ilustrar a actuação da lógica extractivista. O Google fez com que o Android fosse gratuito para todos os smartphones de modo a adquirir uma posição estratégica no mercado, batendo o ecossistema Apple e tornando-se assim o ponto de entrada padrão da Internet para praticamente todo o planeta. É assim de facto que se constrói um império online imensamente valioso.

O ponto-chave é que qualquer que seja o negócio original – Google, Amazon, Uber – as estratégias de conquista do ciberespaço apontam todas para o mesmo alvo: assumir o controlo de "espaços de observação e captura" de dados.

Acerca do sistema de crédito chinês…

Durand apresenta uma análise finamente equilibrada do sistema de crédito chinês – um sistema híbrido público/privado lançado em 2013 durante o 3º plenário do 18º Congresso do PCC, sob a palavra-de-ordem "valorizar a sinceridade e punir a insinceridade".

Para o Conselho de Estado, a suprema autoridade governamental na China, o que realmente importava era encorajar o comportamento considerado responsável nas esferas financeira, económica e sócio política – e sancionar o que não fosse. É tudo uma questão de confiança. Pequim define isto como "um método de aperfeiçoamento do sistema socialista de economia de mercado que melhora a governação social".

A expressão chinesa – shehui xinyong – perde-se totalmente com a tradução no Ocidente. Muito mais complexo do que "crédito social", trata-se mais de "confiança", no sentido da integridade. Em vez das vulgares acusações ocidentais de ser um sistema orwelliano, as prioridades incluem o combate contra a fraude e a corrupção a nível nacional, regional e local, às violações de regras ambientais, ao desrespeito de normas de segurança alimentar.

A gestão cibernética da vida social está a ser seriamente discutida na China desde a década de 1980. De facto, desde os anos 40, como vimos no Pequeno Livro Vermelho de Mao. Pode ser visto como inspirado pelo princípio maoísta das "linhas de massa", como em "começar pelas massas para voltar às massas: acumular as ideias das massas (que estão dispersas, não sistematizadas), concentrá-las (em geral ideias e sistemáticas), depois voltar às massas para as difundir e explicá-las, garantindo que as massas as assimilam e as põem em acção, e verificar na acção das massas a pertinência destas ideias".

A análise de Durand vai um passo além de The Age of Surveillance Capitalism (A era do capitalismo de vigilância), de Soshana Zuboff quando ela finalmente atinge o ponto central da sua tese, mostrando como as plataformas digitais se tornam "feudos": elas vivem e lucram com o seu vasto "território digital" povoado com dados mesmo quando elas bloqueiam o poder sobre os seus serviços, os quais são considerados indispensáveis.

E, tal como no feudalismo, feudos dominam território pela fixação de servos. Os senhores ganhavam a vida lucrando com o poder social derivado da exploração do seu domínio e isso implicava um poder ilimitado sobre os servos.

Tudo isto explica a concentração total. O enérgico Peter Thiel do Vale do Silício sempre salientou que o objectivo do empresário digital é exactamente ultrapassar a concorrência. Como mencionado em Crashed: How a Decade of Financial Crises Changed the World, Thiel declarava: "O capitalismo e a competição são antagónicos. Competição é para os perdedores".

Por isso, agora estamos a enfrentar não um mero choque entre o capitalismo do Vale do Silício e o capital financeiro, mas realmente um novo modo de produção: uma turbo-capitalista sobrevivência como capitalismo rentista, onde os gigantes do silício tomam o lugar das propriedades e também do Estado. Esta é a opção "tecno-feudal", tal como definida por Durand.

Blake encontra-se com Burroughs

O livro de Durand é extremamente relevante para mostrar como a crítica teórica e política da Era Digital ainda é escassa. Não existe uma cartografia precisa de todos esses esquivos circuitos de extracção de receitas. Nenhuma análise de como lucram com o casino financeiro – especialmente os mega fundos de investimento que facilitam a hiper-concentração. Ou como lucram com a exploração árdua dos trabalhadores na gig economy. [2]

A concentração total do globo digital, como recorda Durand, está a conduzir a um cenário já imaginado por Stuart Mill, em que cada terra num país pertencia a um único senhor. A nossa dependência generalizada em relação aos senhores digitais parece ser "o futuro canibal do liberalismo na era dos algoritmos".

Haverá uma saída possível? A tentação é ir ao radicalismo – um cruzamento entre Blake e Burroughs. Temos de expandir o nosso âmbito de compreensão – e parar de confundir o mapa (como mostrado na Carta Magna) com o território (a nossa percepção).

William Blake , nas suas visões proto-psicodélicas, tratava de libertação e subordinação – descrevendo uma divindade autoritária que impunha a conformidade através de uma espécie de código fonte de influência de massas. Parece uma proto-análise da Era Digital.

William Burroughs conceptualizou o Controlo – um conjunto de manipulações que incluía os mass media (ele ficaria horrorizado com os media sociais). Para romper o Controlo, temos de ser capazes de hackear e romper os seus programas centrais. Burroughs mostrou como todas as formas de Controlo devem ser rejeitadas – e derrotadas: "As figuras de autoridade são vistas pelo que são: máscaras mortas e vazias manipuladas por computadores".

Eis o nosso futuro: hackers ou escravos.


[1] Jefferson Airplane: banda de rock psicodélico nos EUA
[2] Gig economy : inclui os que trabalham como fornecedores independentes em plataformas online; empresas de aluguer de mão-de-obra; trabalhadores que se comprometem a estarem disponíveis para quando for necessário (on call) e trabalhadores temporários. Os Gig trabalhadores fazem acordos formais com empresas que atendem pedidos (on demand) a fim de fornecerem serviços aos clientes das mesmas.

O original encontra-se no Asia Times e em
thesaker.is/no-escape-from-our-techno-feudal-world/

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