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26-09-2020

O tratado israelo-emiradense altera a retórica a propósito do Médio-Oriente e torna possível uma paz israelo-árabe

O fim dos acordos de Oslo, Israel e os Emirados assinam

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THIERRY MEYSSAN


A situação no Médio-Oriente está bloqueada desde os Acordos de Oslo assinados por Yitzhak Rabin e Yasser Arafat, em 1993. Eles foram completados pelo Acordo Jericó-Gaza, que reconhecia certas prerrogativas à Autoridade Palestiniana e os Acordos de Wadi Araba que concluíam a paz entre Israel e a Jordânia.

À época, o governo israelita (israelense-br) pensava numa separação permanente dos Palestinianos. Para isso, estava pronto a criar um pseudo-Estado palestiniano desprovido de vários atributos de soberania, nomeadamente um exército e finanças independentes. O trabalhista Yitzhak Rabin havia já previamente feito experiências com bantustões na África do Sul, onde Israel aconselhava o regime do apartheid. Uma outra experiência tinha decorrido na Guatemala com uma tribo maia, sob as ordens do General Efraín Ríos Montt.

Yasser Arafat aceitou os Acordos de Oslo para fazer esbarrar o processo da Conferência de Madrid (1991). Os Presidentes George W. Bush e Mikhail Gorbachev tentaram impor a paz a Israel removendo Arafat da cena internacional com o apoio dos dirigentes árabes.
Apesar de tudo isso, inúmeros comentadores creem poder afirmar que os Acordos de Oslo podiam chegar à paz.

Seja como for, 27 anos mais tarde, nada de positivo limitou o sofrimento do Povo Palestino, mas o Estado de Israel transformou-se progressivamente por dentro. Hoje, este país está dividido em dois campos antagónicos tal como o atesta o seu governo, o único no mundo a ter dois Primeiros-Ministros ao mesmo tempo. De um lado, os partidários do colonialismo britânico por trás do primeiro Primeiro-Ministro, Benjamin Netanhyahu, do outro os partidários de uma normalização do país e das suas relações com os vizinhos, por trás do segundo Primeiro-Ministro, Benny Gantz [1]. Este sistema bicéfalo reflecte a incompatibilidade destes dois projectos. Cada campo paralisa o seu rival. Só o tempo porá fim ao projecto colonial de conquista do Grande Israel das margens do Nilo às margens do Eufrates, como o rasto de um cometa de uma época longínqua.
Desde os atentados do 11 de Setembro de 2001, os Estados Unidos puseram em acção a estratégia Rumsfeld/Cebrowski visando adaptar o exército dos EUA às necessidades de uma nova forma de capitalismo já não baseada na produção de bens e de serviços, mas sim na da engenharia financeira. Para isso, começaram uma « guerra sem fim » de destruição das estruturas estatais de todo o « Médio-Oriente Alargado » sem levar em conta mais os amigos e os inimigos. Em duas décadas, a região tornou-se maldita para os seus habitantes. O Afeganistão, depois o Iraque, a Líbia, a Síria, o Iémene são o teatro de guerras apresentadas como devendo durar algumas semanas, mas que duram indefinidamente, sem qualquer perspectiva final.

Ao fazer-se eleger presidente, Donald Trump havia prometido acabar com as « guerras sem fim » e fazer regressar os soldados dos EUA a casa. Dentro deste estado de espírito, ele deu carta branca ao seu conselheiro especial, e portanto genro, Jared Kushner. O facto de o Presidente Trump ser apoiado no seu país por cristãos sionistas e de Jared Kushner ser judeu ortodoxo levou muitos comentadores à apresentá-los como amigos de Israël. Se eles efectivamente tem um interesse eleitoral em deixar acreditar em tal, não é de qualquer modo a sua visão do Médio-Oriente. Eles entendem defender os interesses do povo Norte-americano, e não o dos Israelitas, substituindo a guerra por relações comerciais segundo o modelo do Presidente Andrew Jackson (1829-37). Esse conseguiu impedir o desaparecimento dos índios que havia combatido enquanto General, muito embora só os Cherokees tenham assinado o Acordo que ele propunha. Hoje em dia eles tornaram-se a mais importante tribo ameríndia, apesar do tristemente célebre episódio do « Trilho das Lágrimas ».

Durante três anos, Jared Kushner percorreu a região. Ele pode constatar por si mesmo quanto o medo e o ódio tinham aí proliferado. Israel persiste desde há 75 anos em violar todas as resoluções das Nações Unidas que lhe dizem respeito e continua as suas lentas e inexoráveis mordidelas de território árabe. O negociador chegou a uma única conclusão: o Direito Internacional é impotente porque quase ninguém —à notável excepção de Bush Sr e Gorbachev— quis realmente aplicá-lo desde o plano de partilha da Palestina, em 1947. Como resultado da inacção da comunidade internacional, a sua aplicação, se ocorresse hoje, acrescentaria injustiça em cima de injustiça.

Kushner trabalhou com muitas hipóteses [2], entre as quais a da reunião do povo palestiniano com o da Jordânia ou a da ligação de Gaza com o Egipto. Em Junho de 2019, apresentou propostas de desenvolvimento económico dos territórios palestinianos durante uma conferência no Barém (o « deal do século »). Mais do que negociar fosse o que fosse, tratava-se de quantificar o que cada um teria a ganhar com a paz. Por fim, ele conseguiu, a 13 de Setembro de 2020, fazer assinar em Washington um acordo secreto entre os Emirados Árabes Unidos e Israel. O qual foi oficializado dois dias mais tarde, em 15 de Setembro, numa versão edulcorada [3].

Como sempre, o mais importante é a parte secreta: Israel foi forçado a renunciar por escrito aos seus projectos de anexação (incluindo os territórios pretensamente “oferecidos” por Donald Trump no projecto de «deal do século») e deixar a Dubai Ports World (dita «DP World») assumir o porto de Haifa, de onde os chineses acabam de ser corridos.

Este acordo vai no sentido das ideias do segundo Primeiro-Ministro israelita, Benny Gantz, mas representa um desastre para o campo do primeiro Primeiro-Ministro, Benjamin Netanyahu.

Não tendo eu mesmo lido a parte secreta dos acordos, não sei se ela indica claramente a renúncia em anexar o planalto sírio do Golã, ocupado desde 1967, e as Quintas de Shebaa libanesas, ocupadas desde 1982. Da mesma maneira ignoro se está prevista uma compensação para o porto de Beirute, na medida em que é claro que a sua eventual reconstrução seria prejudicial tanto para Israel como para os investimentos dos Emirados Árabes Unidos em Haifa. No entanto, o Presidente libanês, Michel Aoun, já mencionou publicamente um projecto de construção imobiliária em vez e no lugar do porto de Beirute.

Para tornar este tratado aceitável a todas as partes, ele foi denominado «Acordos de Abraão», do nome do pai comum ao Judaísmo e ao Islão. A paternidade foi-lhe atribuída, para grandíssimo deleite de Benny Gantz, com a «mão estendida» (sic) de Benjamin Netanyahu, portanto o seu mais duro adversário. Por fim, foi-lhe associado o Barém.

Este último ponto visa estabelecer o novo papel regional que Washington concedeu aos Emirados em substituição da Arábia Saudita. Como tínhamos anunciado, é agora o Abu Dhabi e já não Riade quem representa os interesses dos EUA no mundo árabe [4]. E, os outros Estados árabes são convidados a seguir o exemplo do Barém.

O Presidente palestiniano, Mahmud Abbas, não poupou nas palavras duras contra a «traição» emiradense. Ele foi copiado tanto por aqueles que permanecem hostis à paz (os aiatolas iranianos), como por aqueles que permanecem agarrados aos Acordos de Oslo e a solução de dois Estados. Com efeito, ao oficializar as relações diplomáticas entre Israel e o novo líder árabe, os Emirados, os Acordos de Abraão viram a página aos de Oslo. A palma da hipocrisia volta a ir para a União Europeia, a qual persiste na teoria em defender o Direito Internacional e na prática em violá-lo.
Se o Presidente Trump for reeleito e Jared Kushner continuar a sua ação, os Acordos israelo-emiradenses ficarão na memória como o momento em que Israelitas e Árabes recuperaram o direito de se falar, tal como a queda do Muro de Berlim marcara o momento em que os Alemães do Leste tinham retomado o direito de falar com os seus parentes no Ocidente. Pelo contrário, se Joe Biden for eleito, as “trincadelas” de territórios árabes por Israel e a « guerra sem fim » serão retomadas em toda a região.

Há já bastante tempo que as relações entre Israel e os Emirados se tinham estabilizado sem um tratado de paz, visto que nunca houve qualquer guerra declarada entre eles. Os Emirados vêm comprando secretamente armas do Estado judeu desde há uma dezena de anos [5]. Com o tempo esse comércio reforçou-se, nomeadamente em termos de intercepções telefónicas e vigilância Internet. Além disso, uma embaixada israelita funcionava já sob cobertura de uma delegação junto a um obscuro organismo da ONU nos Emirados. Portanto, os «Acordos de Abraão» põem em causa o discurso israelo-árabe dominante e fazem balançar as relações internas de toda a região.


[1] “A descolonização de Israel começou”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 26 de Maio de 2020. [2] “Jared Kushner reordena o Médio-Oriente”, “Jared Kushner e o «direito à felicidade» dos Palestinianos”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 20 de Dezembro de 2017 & 27 de Junho de 2018. [3] “Abraham Accords Peace Agreement”, Voltaire Network, 15 September 2020. «El presidente Donald J. Trump promueve la paz y la estabilidad en Medio Oriente», États-Unis (White House) , Red Voltaire , 15 de septiembre de 2020. [4] “A primeira guerra da OTAN-MO vira a ordem regional”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 25 de Março de 2020. [5] “Argélia, Egipto, Emiratos, Marrocos e Paquistão compraram armas a Israel, segundo fonte britânica”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 12 de Junho de 2013.



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