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19-09-2020

Nado na freguesia de Bouçoães, a menos de quatro léguas de Vilardevós em linha reta, o Manuel era filho do pároco de Vinhais e de dona Maria Barroso

O parto da República

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MIGUEL RODRÍGUEZ CARNOTA


Nado na freguesia de Bouçoães, a menos de quatro léguas de Vilardevós em linha reta, o Manuel era filho do pároco de Vinhais e de dona Maria Barroso. Após um breve passo pelo exército, onde chega a sargento no Regimento de Cavalaria de Bragança e se converte num afamado tirador, o apaixonado transmontano abandona a carreira das armas e abraça a do saber.

Homem corpulento, de cabelos anelados e mesta barba moura, o docente Manuel Buíça, por volta dos trinta anos, ensina letras, música e francês enquanto se imbui das ideias de liberdade, igualdade e fraternidade. Um convulso Reino de Portugal sofre na altura a ditadura doutro Franco, D. João, quem reprime com mão de ferro qualquer intento revolucionário contra o régime monárquico que encabeça D. Carlos I. O Manuel, homem de ação, entra decidido na Carbonária, a sociedade secreta patriótica, liberal, anticlerical, republicana, que, caso for necessário, não duvidaria em apanhar a pistola ou a espingarda na defesa dos seus altos ideais.

Dias antes de morrer jovem, o Manuel escreve o seu testamento: Meus filhos ficam pobríssimos; não tenho nada que lhes legar senão o meu nome e o respeito e compaixão pelos que sofrem. Peço que os eduquem nos princípios da liberdade, igualdade e fraternidade que eu comungo e por causa dos quais ficarão, porventura, em breve, órfãos. Em Lisboa, a 28 de janeiro de 1908.

Assim foi. A 1 de fevereiro desse mesmo ano, o Manuel, junto de outros carbonários, escreve o seu fado no Terreiro do Paço, essa praça lisboeta aberta ao Tejo e ao mundo. Ao passo de um landau aberto tirado por dous cavalos, o Manuel descobre a carabina que leva escondida debaixo do casaco. Com um movimento bem estudado, produto do seu preciso treinamento militar, pousa um joelho na terra e achega a arma ao rosto. O seu certeiro tiro parte a coluna vertebral, à altura do pescoço, do principal ocupante da carroça. O rei Carlos I de Portugal e dos Algarves morre no ato. O segundo tiro vai para o príncipe herdeiro, o jovem Luís Filipe de Bragança. Mas a carroça afastava-se veloz e já era difícil dar no alvo. O tiro do Manuel erra, mas um outro carbonário, o jornalista alentejano Alfredo Costa, é quem sobe ao landau e de um tiro de pistola acaba com a vida da alternativa imediata de sobrevivência da Monarquia lusitana.

Tampouco o Alfredo e o Manuel sobrevivem a aquele dia. O primeiro, morto de tiro. O segundo, o nosso Manuel, atravessado pola espada de um militar que ali estava. A Coroa, ferida de morte, recai num personagem de segunda fila, um inábil D. Manuel II que lá teve que figurar para termar do régime monárquico e da dinastia de Bragança-Saxe-Coburgo-Gota. Nem três anos durou no palácio; em 1910, a 5 de outubro, nascia a Primeira República Portuguesa.

Como na Rússia ou na França, a história do Manuel e do Alfredo (que passarão alternativamente por heróis e por vilãos ao longo dos anos) ensina-nos que há jeitos sem dúvida cruéis, mas muito efetivos para acabar com as monarquias. E a evidência, que é a mãe de todos os argumentos, diz-nos bem alto e claro que se hoje podes ver o presidente do teu país na fila do teu supermercado, ou ao teu carão na praia tomando sol, ou que se no próximo janeiro vais poder eleger o chefe do teu Estado metendo o teu papelinho na urna, é porque houve, algum dia, um militar, professor e carbonário chamado Manuel Buíça, parteiro da República. Nado na freguesia de Bouçoães, a menos de quatro léguas de Vilardevós em linha reta.

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