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18-12-2019

No que para nós fora um período positivo e de grandes esperanças, para o resto de organizações agrárias supusera um fracasso rotundo

A FRUGA, dez anos na defensa do rural galego, mas vimos de longe

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MANUEL DA CAL VÁZQUEZ


Faz dez anos, o 28 de novembro de 2009, constituíamos na cidade de Lugo a Federación Rural Galega – FRUGA. Um grupo de associações do âmbito agrário e rural, assim como profissionais e pessoas a título individual todas relacionadas com esse mundo, julgamos necessário iniciar o caminho de nos auto-organizar com o objeto de dar apoio e voz ao rural galego. Naquela altura este coletivo não se sentia representado por nenhuma das organizações existentes, tanto no que tinha a ver com a sua linha programática como com a sua prática.

No mês de agosto de 2005 teve lugar um feito relevante na história da Galiza. Por primeira vez o nacionalismo tinha presença no governo galego, correspondendo-lhe ostentar, entre outras responsabilidades, a direção da política agrária galega.

A valoração tanto sobre do balanço da atuação da conselharia nacionalista como das vias abertas para mudar a vida do rural galego foi um dos motivos que deram origem ao nascimento da FRUGA. No que para nós fora um período positivo e de grandes esperanças, para o resto de organizações agrárias supusera um fracasso rotundo, com duros ataques às medidas adotadas, bem fora o Banco de Terras, as Unidades de Gestão Florestal, ou o Contrato de Explorações Sustentáveis, só por citar algumas das medidas estruturais postas em marcha pela Conselharia do Meio Rural do BNG.

Um outro motivo que nos distanciava das organizações agrárias atuantes, naqueles momentos, foi o de todas estarem integradas em entidades de carácter estatal, sendo que na prática vinham atuando como sucursais das casas matrizes radicadas em Madrid.

Nestes dez anos o rural galego tem assistido a grandes mudanças, e não sempre em sentido positivo, senão mais bem em sentido contrário. A evolução viu marcada pelo abandono, a despovoação e a conseguinte desertificação. Outra mostra desta tendência é o processo de concentração da produção em cada vez menos unidades produtivas e por sua vez de maiores dimensões.

Também tem mudado significativamente, nestes últimos dez anos, o que tem a ver com as próprias organizações agrárias existentes no momento da nossa constituição. Assim algumas têm desaparecido, Xovenes Agricultores, e outras sofreram significativas roturas que minguaram a sua capacidade de atuação, caso do Sindicato Labrego, e, sobre tudo, surdiram outras novas, e não somente a nossa. Perante deste panorama a administração galega nega-se reiteradamente a nos reconhecer como interlocutores, com a cumplicidade dalgumas das organizações agrárias existentes. Para dar-lhe saída a esta anômala situação, desde a FRUGA vimos reclamando a convocatória de eleições no campo galego.

Nada mais nascer foi demandada a nossa presença na comarca da Límia por causa da declaração unilateral, por parte da Junta da Galiza, da Zona de Especial Proteção de Aves (ZEPA). Fomos a única organização que denunciou o fracasso do projeto lácteo, do PP, conhecido como Alimentos Lácteos, que supus o esbanjamento de 9 milhões de euros, assim como a denúncia contra a trama de falsos apoios florestais, presumivelmente cobrados de jeito fraudulento pela empresa Maceiras e Esmorís, de Vimianço. Desenvolvemos uma interessante atividade no sector vitícola, desde defender os contratos homologados a promover, junto com outros coletivos, a aprovação da Indicação Geográfica Protegida “Ribeiras do Morraço”, passando pela celebração de jornadas formativas e de análise.

Desde o primeiro momento estivemos e estamos presentes em todas as plataformas sociais e setoriais que, com o objetivo de defender os interesses da povoação que vive e trabalha no rural, se constituíram ao efeito, tais como a do sector lácteo, da incineradora que se pretendia instalar no Irixo, ou a que se criou em Santiago de Compostela contra do trasladado do mercado de Ámio, e mais recentemente a que combate o projeto da mina que se quer desenvolver entre os concelhos de Touro e O Pino. Também fazemos parte da Rede Galega de Educação e Desenvolvimento Rural, na defesa dos centros de ensino localizados no nosso rural e contra o seu desmantelamento.

Junto com a ADEGA, a CIG e a ORGACCMM, constituímos, em abril de 2012, a Aliança por um Médio Rural Galego Vivo com o fim de lutar por um médio rural multifuncional e sustentável e com o objetivo de defender uma vida digna para as populações rurais. Estes princípios têm cristalizado num trabalho colaborativo como o desenvolvido na defesa do monte galego, ou de oposição à privatização do monte vizinhal. Sendo de destacar a iniciativa legislativa popular na defesa de outro modelo produtivo para o monte galego, contra a eucaliptização, e de combate aos incêndios rurais, que chegou angariar mais de 42.000 assinaturas, sendo rejeitada no Parlamento Galego com os votos em contra do PP e a abstenção do PSOE.

Participamos das greves gerais convocada pela nossa organização irmã, a CIG, mas também da celebração do Dia da Pátria Galega, e na medida das nossas possibilidades apoiamos o projeto jornalístico “Sermos Galiza” e a próxima aparição do jornal diário “Nós Diário”. Partilhamos junto com outros coletivos a reivindicação dos direitos nacionais da Galiza, fazendo parte da plataforma “Via Galega”.

Proximamente celebraremos a nossa Assembleia Nacional que nos servirá para fazer um balanço destes dez anos de trabalho no que abordaremos o caminho percorrido, uma atualização do nosso programa de defesa do rural galego e das nossas bases organizativas, e por último abordaremos os reptos que termos de defrontar cara o futuro.

Como diz uma canção do músico português, recentemente falecido, José Mário Branco, nós vimos de longe e vamos para longe. Isto trasladado à nossa história vem a querer dizer que a FRUGA vem de longe e tem vontade de continuar para longe, e vimos de longe porque a FRUGA não nasce por geração espontânea nem é produto do visionarismo de quatro mentes iluminadas. Somos devedores dum coletivo que ao redor dos anos 70 do século passado puseram-se mãos a obra para reconstruir o movimento agrarista, desde uma perspectiva nacionalista, aniquilado com o golpe de estado franquista de 1936. Primeiro com a constituição dos Comités de Ajuda à Luta Labrega, os CALL, no que sobressaem figuras como as de Ramon Muñiz de las Cuevas, Moncho Valcarcel, Moncho do Carvalhinho, ou Xosé Lois Ledo Andión. Num primeiro momento este labor recaiu em pessoas relacionadas com o mundo rural como curas e mestres, agentes de extensão agrária, peritos e estudantes, para logo dar passo ao surgimento das Comisións Labregas (CCLL) coa intenção de que foram os labregos e as labregas quem assumiram a responsabilidade de dirigir o processo e de aí surgem já definitivamente as Comisións Labregas, com pessoas como Aristóbulo Quinteiro e Eduardo Míllara na comarca do Ribeiro, Fiz de Sárria ou Bernardo Fernández Requeixo nas terras de Abadim que, no primeiro congresso das Labregas, seria elegido secretário-geral.

Coincidindo com o nosso décimo aniversário queremos aproveitar a celebração da nossa assembleia para, nesta data tão significativa, render homenagem de reconhecimento a todas aquelas pessoas que com o seu trabalho e entrega contribuíram ao renascimento do agrarismo galego de mediados do século XX.

Figura destacada de todo este período histórico é a de Emílio López Perez “O Milucho”, que nos acompanha desde as primeiras lutas labregas de grande transcendência como foram as lutas contra a quota empresarial agrária, passando pelas que levamos contra as quotas do leite até os nossos dias como cofundador da FRUGA, sem esquecer os seus anos de parlamentar no Parlamento Galego e logo como delegado da Conselharia do Meio Rural do BNG, em Lugo. Por toda esta dilatada história dedicada a lutar pela dignidade do mundo rural galego e das suas populações consideramos, desde a FRUGA, que se faz imprescindível render-lhe uma sentida e merecida homenagem de reconhecimento.

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