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21-10-2019

Ambos os termos designam lugares de difícil acesso, quebrados e íngremes. Com todo, o sentido de ambos os termos não era exatamente idêntico.

Sair dum souto para meter-se... numa fraga

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HENRIQUE EGEA LAPINA


A etimologia pode ser um elemento de análise do nosso passado. Não apenas das situações físicas, geográficas, de população animal ou humana, de cultivo etc. que deram nome aos nossos lugares mas também a concepções doutra ordem, de tipo cultural. Como e quando se dá um determinado tipo de atividade ou de risco caracterizador.

Este é o caso de dous termos que são de uso tão frequente e estão tão interiorizados para os que falam a nossa língua, aquém ou além Minho, que apenas reparamos no que o seu significado etimológico transmite. Os termos são fraga e souto.

Fraga e souto

Segundo todas as teorias etimológicas os termos galegos para designarem lugares arvorados (por espécies autóctones como carvalhos, cerquinhos, rebolos, castanheiras, faias e outras caducifólias) estão relacionados com uma orografia acidentada.

O primeiro caso, fraga, faz-se evoluir dum latim fracta(m) forma feminina do particípio do verbo latino frango, frangere, fraxi, fractum (romper). Significaria algo assim como rota, rachada, referido à terra, ao terreno. Ignoro porque processo perde o -t- em posição inicial de sílaba para deixar um hipotético *fraca que acabaria por evoluir a “fraga”. O normal é a perda da consoante em posição final de sílaba diante doutra consoante como em ruptu(m) que evoluiu a “roto”, conservando o -t-, mas há casos em que mesmo a consoante implosiva deixa um rasto, de ser tardia a evolução, como no caso de rector(em) que deu, por via semiculta, reitor (de não ter sido usada em contextos cultos, e por tanto em latim, teria evoluído a redor ou reidor.

O étimo latino fracta(m) é também origem, segundo alguns autores (E.Rivas) de freixa, fracha e outras polo estilo que designam áreas apenedadas e com fortes desníveis. Mesmo a flecha do castelhano, procedente tal vez dum antigo *frecha, designativa de montes apenedados na área de Salamanca.

Outros também propõem, numa típica manobra “científica”, uma forma hipotética que permita a evolução desejada, neste caso *frangu(m)/franga(m), que não teria a ver com as aves de curral (ou si?), e perderia a nasal num clássico comportamento céltico. Em todo caso esta forma hipotética (e hipotética quer dizer NUNCA REGISTRADA na escrita... do latim, claro está) seria uma derivação da mesma família léxica do verbo latino frango e por tanto teria a mesma carga de significado que a primeira.  

O segundo termo, souto, que hoje identificamos com um terreno onde abundam os castanheiros, ainda que poda haver exemplares doutras espécies, está emparentado com o concepto latino de saltus, -us (da quarta declinação!), de origem escura e com significados variados: região de bosques e de pastos (!); bosque, selva, floresta, monte, prado (!) mas também tem o significado de garganta, desfiladeiro, cavorco, passo estreito entre bosques. Plauto usa o termo para designar o sexo feminino...

A evolução fónica do termo é impecável e muito comum na nossa língua. O ele de *saltu vocaliza em -u-, fenómeno hoje vivo no brasileiro (como a pronuncia de pauma por palma, por exemplo), e do ditongo resultante (*sauto) evoluiu a souto, como de auru(m) evoluiu a ouro (oiro em português).

Sobre a duplicidade de resultados deste último caso de ouro/oiro, em português estândar e no galego normativizado, há casos curiosos. Por exemplo o estândar meridional serve-se do termo “coiraça” para o que o galego usa “couraça” mas a palavra simples da que derivaram ambas as duas tem a ditongação inversa: couro no português, coiro no galego. Com todo ambas ditongações são formas de uso em ambas as margens da raia.

O sentido do substantivo souto, como o de fraga, remete a um concepto relacionado com o desnível e a irregularidade do terreno. Um salto é um lugar estreito e por tanto pino.  

Que podemos deduzir destes dous termos referidos a áreas com floresta?

Ambos os termos designam lugares de difícil acesso, quebrados e íngremes. Com todo, o sentido de ambos os termos não era exatamente idêntico. Enquanto a fraga era mais quebrada e resultava difícil qualquer cultivo que não fosse o aproveitamento da madeira, e mesmo assim; no caso do souto a dificuldade era relativamente menor. Nesses dous espaços era impossível a agricultura cerealística extensiva. Assim que a translação semântica do seu significado original a designar lugar cheio de arvorado deveu acontecer num período em que o cultivo do cereal é primordial e culturalmente preferido.

Com todo os soutos podiam ser submetidos, e de facto ainda o são, a uma forma de cultivo autóctone onde não era necessário o arado nem uma canga de bois, nem o terreno plano doutras culturas. Este não era outro que o cultivo da castanha tão próspero noutrora e base do sistema alimentício dos galegos por séculos e desde épocas bem recuadas e prévias aos romanos, que não foram, como demonstrei noutro artigo, os portadores dos castanheiros.

Tendo em conta que ambos os termos são “latinos”, quere isto dizer que os galaicos pré-romanos não tinham soutos nem fragas ou os equivalentes na sua língua? Devemos supor que os bosques cobriam a Gallaecia antes de “chegarem os romanos com o cereal”? Obviamente não.

Os galaicos produziam cereais, com certeza como se pode deduzir do testemunho de Strabo livro 3, cap.3, 7, onde diz que dispunham de cerveja, produto elaborado a partir dos grãos de cereais, concretamente cevada. Mas a extensão de terras dedicadas a este cultivo era menor do que foram depois, em época romana e, de seguro, na Idade Média, em que se desflorestam montes para preparar a terra para o cultivo do pão. São estas as arroteias que servem de topónimo a muitas áreas do nosso país com formas tais como “arrotea” sem i epentético e “a rotea” com falso corte da vogal interpretada como artigo.

Voltando aos soutos e às fragas, deduzo que ambas as denominações são de época medieval pois o concepto das florestas como lugares marginais é próprio deste período e nomeadamente desde a reforma gregoriana, iniciada a finais do século XI, que estendeu a deflorestação, por médio das arroteias, para converter essas terras em zonas de produção cerealística ao modo romano (trigo, centeio ou milho miúdo) deixando para o “cultivo” de florestas as terras marginais, excessivamente irregulares para meter arados e fileiras de trigo.


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