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30-09-2019

Um estudo divulgado pelo Centro Europeu de Relações Externas revela uma absoluta falta de sintonia entre a prática das instituições de Bruxelas e Estrasburgo e a opinião dos cidadãos.

Europeus dizem a Bruxelas: nem Moscovo nem Washington

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JOSÉ GOULÃO


A esmagadora maioria dos cidadãos europeus defende a neutralidade da União Europeia no caso de deflagrarem conflitos armados entre os Estados Unidos e a Rússia ou a China. Esta não é a única matéria em que existe dissonância absoluta entre as políticas de Bruxelas e a vontade dos cidadãos, mas revela até que ponto as instâncias não-eleitas da União Europeia estão distantes da opinião dos cidadãos e, por consequência, do respeito pela democracia.

Um estudo publicado pelo Conselho Europeu de Relações Externas, um think tank com escritórios em sete capitais europeias vocacionado para o reforço do «europeísmo», não deixa dúvidas quanto às desconfianças que a maioria dos cidadãos europeus têm em relação não tanto à União mas, sobretudo, quanto às políticas que aplica em termos de posicionamento internacional, segurança, opções militares e até comércio.

Os dados provam claramente: as pessoas desejam uma coisa, Bruxelas dá-lhes outra. Isto é verdade para as relações externas, militares e de segurança, comerciais e até quanto ao comportamento da União em relação à guerra contra a Síria e as ameaças ao Irão. O estudo comprova que a tão falada empatia e fraternidade entre os europeus e os Estados Unidos da América não passa de um mito inscrito forçadamente na efabulação histórica com a colaboração dos dirigentes políticos e militares e ampliado pelos megafones mediáticos. Nada pode estar mais longe da realidade – testemunham as opiniões dos cidadãos.

O trabalho do Conselho de Relações Externas, assinado por Susi Dennison, resulta de dados obtidos junto de 60 mil eleitores de 14 países da União Europeia, entre eles os mais populosos e influentes – uma amostra que tem um significado muito relevante.

Nem Washington nem Moscovo, neutralidade

Os dados que mais traduzem a clivagem entre o comportamento das instituições europeias e a opinião dos cidadãos relacionam-se com o posicionamento internacional, especialmente em hipóteses de conflitos de grande envergadura.

Quando convidados a sugerir a atitude da União Europeia perante uma eventual guerra entre os Estados Unidos e a Rússia ou entre os Estados Unidos e a China, a resposta é tão esmagadora que não deixa margem para dúvidas: nem Washington nem Moscovo, uma estrita neutralidade.

A opinião manifestada tem graduações conforme os países e as suas posições geográficas e geoestratégicas, mas caracteriza-se por uma indubitável particularidade: a neutralidade está sempre acima dos 50% dos inquiridos, excepto no caso da Polónia, perante hipótese de conflito entre Washington e Moscovo; nesta eventualidade são 45% os polacos que defendem a neutralidade, ainda assim muito à frente dos que se declaram pela parte norte-americana, 33%.

No caso de conflito entre Estados Unidos e a Rússia a neutralidade varia entre os citados 45% da Polónia e os 85% da Áustria, com destaque ainda para os 81% da Grécia, os 70% da Alemanha, os 63% da França, os 65% da Itália – valores idênticos aos registados na Holanda, Espanha e Suécia.

Em 11 dos 14 países a maioria dos cidadãos preferem os Estados Unidos à Rússia, mas sempre em percentagens ínfimas perante a neutralidade. São relevantes os 33% da Polónia favoráveis a Washington e os 28% da Dinamarca, mas os restantes são sempre abaixo dos 20%, como a França e a Holanda (18%), sendo que na Alemanha não passam de 12%, contra 7% que preferem o lado russo.

Há ainda três casos especiais que são de ter em conta porque reforçam a preferência pelo distanciamento da política oficial actual e a falsidade da pretensa fraternidade europeia com os Estados Unidos da América. Gregos, eslovacos e austríacos pronunciaram-se favoravelmente a Moscovo em relação a Washington. E se a diferença é apenas de dois pontos percentuais na Grécia e na Áustria – onde apenas 4% apoiam os Estados Unidos – torna-se abissal na Eslováquia: 6% contra 20% caindo para o lado russo, sendo 65% a aposta na neutralidade. Lá terão as suas razões.

Os resultados são do mesmo tipo em caso de conflito entre os Estados Unidos e a China, com reforço da posição de neutralidade – todos os países acima dos 54% - resultante de um ainda menor apoio à parte norte-americana.

Há também dois casos particulares a registar, e também eles com características idênticas. Na Eslováquia, a percentagem dos que apoiam Moscovo e Pequim é a mesma (8%), numa situação de 73% de neutralidade; na Áustria, porém, são mais (6%) os que apoiam Pequim do que Washington (4%), sendo 83% os partidários da neutralidade.

A Áustria é, como se percebe pela leitura conjugada dos dados, um país com escassas simpatias pelos Estados Unidos embora com uma assinalável vocação europeia em termos de confiança, optimismo e neutralidade. Viena afirma-se como um pilar da União Europeia, mas certamente uma União muito diferente da que é formatada em Bruxelas.

Muita desconfiança

Um dos dados em que estas opções austríacas são mais visíveis extraem-se do apuramento dos índices de confiança na União Europeia, nos Estados Unidos ou em nenhum deles, segundo as opções apresentadas pelos responsáveis do estudo. Apenas 3% dos austríacos confiam nos Estados Unidos contra 60% identificando-se com uma ideia virtual de União Europeia.

Neste painel da confiança são quatro os países – dois deles pilares estruturais - onde a maioria dos eleitores se recusam a escolher entre Washington e Bruxelas, preferindo a alternativa «nenhum». Trata-se da Grécia (58%), da República Checa (54%), da França e da Itália, respectivamente com 41% e 37%.

A União Europeia, através das suas políticas, mina até as próprias estruturas.

Os eleitores europeus desconfiam também da capacidade da União Europeia em poder garantir a sua própria segurança, por estar dependente dos Estados Unidos (e da NATO), uma situação que, no mínimo, a maioria dos inquiridos não pretende que seja alargada.Se passarmos dos domínios da segurança aos do comércio a desconfiança é a mesma, ou até mais profunda.

Apenas os cidadãos de um entre os 14 países, a Roménia, consideram que as negociações comerciais internacionais estão mais bem entregues à União Europeia do que ao governo nacional. Em todos os outros casos os eleitores preferem os governos dos seus países, com percentagens que vão dos 26% da França e da Hungria aos 46% da República Checa. Em relação à França, porém, a confiança na União não vai além dos 12%, preferindo a hipótese mista governo/União (27%).

A Alemanha confia muito mais no próprio governo (29%) do que na União Europeia (12%), apesar de a política de Bruxelas não passar de um instrumento de germânico. Berlim prefere apostar pela certa mesmo que a outra face da moeda exponha uma profunda ingratidão.

A própria Áustria, com o seu «optimismo» europeísta, confia muito mais nas negociações comerciais conduzidas pelo governo de Viena (41%) do que por Bruxelas (17%).

A União Europeia de um lado, os cidadãos do outro

Contas feitas e provas aferidas, o estudo divulgado pelo Centro Europeu de Relações Externas revela uma absoluta falta de sintonia entre a prática das instituições não-eleitas de Bruxelas (e mesmo a eleita de Estrasburgo) e a opinião dos cidadãos.

A uma União Europeia que age na total dependência dos Estados Unidos em termos económicos, militares e de segurança, esmagadoras maiorias de eleitores europeus contrapõem um comportamento de neutralidade nas questões internacionais e um distanciamento – quando não rejeição – em relação a Washington e respectiva influência.

Nenhuma das posições que a maioria dos eleitores europeus expressaram no estudo sustenta a política assumida por Bruxelas correspondendo aos interesses internacionais e expansionistas norte-americanos. Logo, a política da União Europeia é autocrática em relação aos seus cidadãos.

Enquanto os Estados Unidos continuam a inventar pretextos para uma guerra contra o Irão – sem que a União Europeia se distancie credivelmente desse crime militarista – esmagadoras maiorias dos cidadãos em todos os países europeus abrangidos pelo estudo defendem a manutenção do acordo nuclear com Teerão.

Em 12 dos 14 países a maioria dos cidadãos consideram que a União Europeia não fez o suficiente para acabar com a guerra contra a Síria. Apenas a Dinamarca e a Holanda acham que sim.

Sobre este assunto, o estudo/inquérito teria sido mais profundo se pedisse aos inquiridos para se pronunciarem sobre a participação da União Europeia no lançamento e no desenvolvimento da própria guerra em território sírio, mas a autora e os mentores do projecto entenderam que não seria conveniente seguirem por esse caminho.

Mesmo sem esse importante item, sobejam elementos, neste estudo, para se concluir que a democracia é um mito cultivado pela União Europeia à altura de outros, como a suposta admiração dos cidadãos europeus pelos Estados Unidos.

Através destes jogos de mistificação não surpreende que as respostas sobre temas como as sanções contra a Rússia e a «protecção» que os governos europeus deverão montar contra a China sejam dispersas e sem coerência interna.

A conjugação destes enviesamentos com a comunicação social dominante transformada em propaganda, principalmente em matérias de política internacional e geoestratégia, proporciona magmas inconclusivos como os observados no estudo. Sendo que o modo como estes temas foram abordados na construção do estudo também não ajuda – dir-se-ia haver receio de usar vias de inquirição mais objectivas.

Independente disto, o estudo do Centro Europeu de Relações Externas1 é um importantíssimo documento sobre o que é a União Europeia e o que deveria ser – nos antípodas – segundo a opinião da maioria dos seus cidadãos.

E se a União faz uma coisa e os cidadãos eleitores desejam outra, bem diferente, podem extrair-se conclusões objectivas:

- os eleitores votam, pensam, dão opiniões mas as instituições de Bruxelas, que já de si não são eleitas, decidem por livre arbítrio;

- para a União Europeia a democracia é um conceito vazio, utilizado para florear discursos e programas;

- a «inalienável» e «fraternal» aliança entre a União Europeia e os Estados Unidos da América é uma mistificação que já não ilude a maioria dos europeus.

Mas que arrasta o risco de criar situação dramáticas de que as principais vítimas serão esses mesmos europeus.

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