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29-07-2019

O neoliberalismo não tem género. Não será certamente por estar uma mulher à frente da Comissão Europeia que os salários e direitos das mulheres vão registar avanços.

Duas mulheres, muita mistificação

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JOSÉ GOULÃO


Duas mulheres foram escolhidas para cargos de grande destaque no gigantesco aparelho burocrático neoliberal que é a União Europeia. Ao cabo de um opaco processo de tráfico de influências, a alemã Ursula von der Leyen emergiu como escolha final para a presidência da Comissão Europeia; e a directora-geral do FMI, Christine Lagarde, foi designada presidente do Banco Central Europeu.

Duas mulheres politicamente de extrema-direita deixando atrás de si, em lugares que ocuparam recentemente, rastos de incompetência, clientelismo e corrupção.

Tais nomeações, contudo, foram enaltecidas como grandes passos para a igualdade de género. Uma mistificação no meio da nuvem cerrada de mistificações em que se move a União Europeia.

O manuseamento propagandístico das chamadas «causas fracturantes» funciona hoje como um método cada vez mais apurado para salvaguardar a estagnação social, tentando vedar o combate às questões de fundo da austeridade, da injustiça e da supressão de direitos; um artifício que encoraja a realização de acções sectoriais com efeitos inócuos e limitados, quando muito registando pequenas vitórias que salpicam um caminho tortuoso e sem fim à vista. Como se as lutas contra a discriminação de género e a degradação ambiental, por exemplo, se esgotem em si próprias, de maneira autónoma, e possam ser resolvidas com êxito à margem do funcionamento global da sociedade que alimenta tais problemas.

O cenário assim instaurado é o sétimo céu da autocracia neoliberal global – o regime em que vivemos. Os «grandes avanços» traduzidos pelo facto de haver agora mulheres à frente de aparelhos de decisão da União Europeia fomentam uma poderosa ilusão de que as coisas estão a mudar num sentido «progressista» e de superação de velhas desigualdades. Para que tudo continue na mesma.

Isto é, para que a União Europeia e outros aparelhos do globalismo que aprofunda as desigualdades e as injustiças humanas continuem a funcionar como trituradores de direitos e princípios. Com homens ou mulheres à cabeça, tanto faz.

Neoliberalismo tem género?

Ursula von der Leyen, política alemã da ala direita do partido da chanceler Angela Merkel, transitou de ministra da Defesa da Alemanha para presidente da Comissão Europeia. Mantém a submissão executiva à NATO, que tutela de facto a União Europeia; e, entretanto, estão por confirmar as informações segundo as quais a sua nomeação foi recomendada pela administração Trump, como segunda escolha em relação ao favorito original, Manfred Weber.

A veracidade destas informações não tardará a ser posta à prova. A pedra de toque será a atitude de von der Leyen em relação à exigência norte-americana de cancelamento da construção do gasoduto North Stream 2.

Sabendo-se que este assunto é motivo de antagonismo forte entre Trump e a chanceler Merkel, que se bate pela construção do gasoduto entre a Rússia e a Alemanha, rapidamente se verá de que lado estará a presidente da Comissão, isto é, se a exemplo de Manfred Weber, funcionará como uma agente dos interesses norte-americanos ou, pelo contrário, contribuirá para que os europeus tenham gás natural mais barato e menos nocivo para o ambiente.

Seria de supor que a nomeação de Ursula von der Leyen resultasse de algo mais do que baixa barganha política eurocrática e tivesse, no mínimo, uma base de competência executiva a sustentá-la. Parece que também não é o caso.

Todos os partidos alemães no Parlamento Europeu, com excepção dos cristãos democratas, se manifestaram contra a escolha de von der Leyen, ao que parece pelo nada dignificante papel desempenhado à frente do Ministério da Defesa.

No consulado desta mulher de extrema-direita o Estado gastou mais do que nunca, em tempos recentes, com as forças armadas do país; e nunca estas, segundo os peritos, estiveram em nível tão baixo de qualidade e prontidão.

Enquanto os inquéritos em curso não fizerem luz sobre suspeitas de clientelismo ou outras formas de corrupção, fica, para já, uma nota medíocre em termos de competência e desempenho da ministra da Defesa, qualidades que parecem não ser imprescindíveis para o cargo de chefe da Comissão Europeia, como já se sabia pelas prestações dos antecessores de von der Leyen.

Extrema-direita, militarismo, federalismo, ortodoxia neoliberal são, portanto, os atributos que a ministra alemã da Defesa leva para a presidência da Comissão Europeia. Há quem prefira enaltecer o facto de ser mulher, colocando a questão de género acima das convicções e aptidões políticas, como se mulheres como Margareth Thatcher, Angela Merkel ou Hillary Clinton, por sê-lo, fossem mais recomendáveis e mais «progressistas» que os homens cumprindo os mesmos preceitos da direita política, do militarismo e da autocracia neoliberal.

O neoliberalismo não tem género. Não será certamente por estar uma mulher à frente da Comissão Europeia que os salários e direitos das mulheres nas fábricas, nos empregos, nos serviços, na sociedade em geral vão registar os avanços que estão registados nas leis, em tantos casos só para mistificar e fazer de conta. E também não será por isso que a austeridade deixará de fustigar as famílias.

Mulher certa no lugar certo

À lista de mulheres atrás citadas pode e deve acrescentar-se Christine Lagarde, chefe do FMI e agora do Banco Central Europeu. A sua condição feminina não promete, nem garante, qualquer alteração da gestão opaca e antidemocrática deste órgão que, além de gerir o euro ao estilo do marco alemão representa o nível de topo da decisão eurocrática – logo autocrática.

As compatibilidades entre Christine Lagarde e gestão transparente formam um conjunto vazio. Quando saltou de ministra das Finanças do corrupto presidente Sarkozy para a cabeça do templo do neoliberalismo que é o Fundo Monetário Internacional, Lagarde estava, também ela, envolvida num escândalo que lesou o Estado francês em pelo menos 400 milhões de dólares em proveito do empresário mafioso Bernard Tapie.

A Justiça francesa chegou a atingir a própria Lagarde mas terá, entretanto, mudado de caminho, provavelmente porque a estes níveis político-financeiros passa a gerir-se por outros códigos.

É uma mulher assim que se senta no trono do euro, ao serviço do casino financeiro onde giram as roletas do Goldman Sachs e afins. Para o caso, o género de Lagarde interessa tanto como o do seu antecessor, Mario Draghi. Não será através dela que uma sociedade que discrimina as mulheres passará a ser menos segregacionista nessa matéria.

Com Lagarde ou outro nome – independentemente do género – que tivesse resultado do tráfico clandestino de influências que determinou os chefes dos órgãos da União Europeia, o Banco Central Europeu continuará a ser o que sempre foi e aquilo para que nasceu: um instrumento de ditadura económico-financeira.

A peregrinação de Ursula

Quando Ursula von de Leyen peregrinou pelos vários grupos do Parlamento Europeu, tentando vender a cada um deles o que era suposto estes gostarem de ouvir para depois responderem com votos, a presidente da Comissão Europeia prometeu medidas a eito, e também as suas contrárias quando isso foi conveniente, liberdades permitidas por quem não precisou de programa porque na União Europeia bastam o nome e as recomendações que o impõem.

Apesar do carácter absurdo do périplo, do qual não se houve nada bem porque acabou por ser salva pelas boas vontades das extremas-direitas polaca e húngara, von der Leyen contribui para dar exemplos de como funcionam os processos de mistificação nos areópagos eurocratas.

Numa sessão de propaganda, a presidente da Comissão chegou a prometer a instituição de um salário mínimo europeu – evidentemente uma ofensa ao catecismo neoliberal e a todos os argumentos austeritários que vigoram na União; e garantiu que irá tomar medidas para combater a degradação ambiental.
Não a levaram a sério – nem era isso que estava em causa – mas as promessas ambientais ficam como exemplo de que o tratamento «autónomo» das chamadas «causas fracturantes» se tornou, afinal, um instrumento transpartidário no especto político.

Querer resolver os problemas ambientais do planeta através de promessas e medidas avulsas é a melhor maneira de garantir que se cumpram as piores projecções de quem sabe verdadeiramente do assunto.

As desigualdades de género, como a discriminação de minorias, as várias segregações, a poluição ambiental não se resolvem por compartimentos. Tal como o desemprego, as gritantes desigualdades de desenvolvimento, a perseguição aos direitos laborais e cívicos, a crescente injustiça na distribuição de rendimentos não se combatem sem promover mudanças profundas nas estruturas, organizações e mentalidades vigentes na sociedade.

Ter a ilusão de que os grandes poluidores e predadores do planeta são parte da luta por um meio ambiente mais saudável é o mesmo que acreditar na possibilidade de os que lucram com a «liberalização do mercado de trabalho» se empenharem no combate ao desemprego. Da mesma maneira que uma mulher à frente do aparelho autocrático da Comissão Europeia em nada contribuirá para promover a igualdade de género.

A propaganda global engendrou estas mistificações para que, afinal, nada mude no funcionamento e organização da sociedade global neoliberal exploradora, destruidora e assente na mentira.

Aceitá-las é um perigo para a humanidade.



O orixinal atópase en Abril, Abril

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