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15-07-2019

Uma vez morta, ou quase, esse tipo de sociedade agrária e rematado esse ancestral isolamento que permitiram que o outrora poderoso romance astur-leonês se mantivesse vivo na fala do povo.

Guia breve para uma viagem singular a Miranda do Douro

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MIGUEL RODRÍGUEZ CARNOTA



Não há tanto tempo, quando as meninas do planalto mirandês saíam da sua aldeia para irem à vila sabiam que nesse novo território deviam também mudar de língua. Já não valiam esses ditongos quase impossíveis para ouvintes não avezados, nem esses diminutivos em –ico, tão peculiares para os interlocutores lusitanos. Havia que falar fidalgo, a língua da gente fina, que não é outra cousa que o que o resto dos mortais conhecemos por português normativo. Uma vez morta, ou quase, esse tipo de sociedade agrária e rematado esse ancestral isolamento que permitiram que o outrora poderoso romance astur-leonês se mantivesse vivo na fala do povo, a língua mirandesa é vindicada hoje com um sinal de identidade em tempos de globalização esmagadora. Corram: a língua ainda flui natural das bocas dos velhos falantes que resistem nas aldeias do planalto. Para ouvidos sensíveis, escutá-la resulta um prazer quase gastronómico, uma mistura de sabores onde se fundem ecos das Astúrias e da Galiza, de Sayago e de Portugal. Mas para isso terão que abandonar o clássico circuito turístico de Miranda do Douro e dos cruzeiros ambientais para se adentrarem por aldeias inçadas de surpreendentes pequenas joias monumentais, de histórias insuspeitadas e de casas que, agora esbarrulhadas polo tempo e a despovoação, relatam vidas doutros tempos. 

Há, felizmente, bons introdutores para que os viageiros que não querem ser turistas possam dar os seus primeiros passos nesse território. As casas rurais são uma boa porta de entrada. Algumas como a de Belharino (na freguesia de Zenízio / Genísio; pronuncie-se Villarino à maneira castelhana ou leonesa) faz gala da língua mirandesa na sua web, um alentador sinal que se vê confirmado pola paixão que os seus proprietários Francisco e Irene Domingues põem ao falarem das cousas da sua terra. Mas há outras, todas boas, onde as pessoas da Galiza seremos bem recebidas, quiçá a causa da lembrança que perdura na memória histórica das gentes do planalto. Atenção à beleza desta história que aconteceu em Caçarelhos, uma localidade hoje pertencente ao vizinho concelho de Vimioso. Conta-se que nos finais do século XVIII uma partida de canteiros galegos foi contratada para a reconstrução da igreja. Da qualidade do trabalho dos nossos paisanos fala ainda hoje a perfeição da fatura do monumento. Aqueles trabalhadores galegos eram pessoas bem apreciadas, estimadas polo povo. Ao acabarem a capela decidiram prolongar a sua presença em Caçarelhos para agasalharem o abade e a vizinhança com um admirável cruzeiro de pedra, o mais fermoso da Terra de Miranda. O cruzeiro dos galegos é uma obra de arte da que se pode desfrutar hoje, em frente da capela de São Bartolomeu.

Mas voltemos à língua mirandesa. Sobre a sua história recente paira a figura de Amadeu Ferreira, quem, em ocasiões sob o pseudónimo de Fracisco Niebro, produziu uma extensa obra de criação e tradução na sua língua natal e reivindicou, desde a sua privilegiada posição em Lisboa, a cultura do planalto. Foi Ferreira uma pessoa clave para que a língua mirandesa se convertesse na segunda língua de um Portugal que em 1999 deixou de ser oficialmente monolíngue. Desde então o mirandês ensina-se por opção nas escolas, o qual não é, como sabemos, garantia de sobrevivência nenhuma, mas foi no seu momento um passo à frente.

A não perder são várias visitas obrigadas. Uma é o Centro de Música Tradicional Sons da Terra em Sendin / Sendim onde com sorte terão a oportunidade de departir com o folclorista Mário Correia. O esforço pola recuperação da música, dos saberes e das tradições mirandesas que a associação desenvolve é louvável, e o verbo apaixonado do Mário merece longos momentos de atenção; ali ouvirão histórias arraianas de contrabando e de guerrilha, de guardias civis e guardinhas, histórias violentas de fugidos, de represaliados políticos e de periódicas guerras transfronteiriças que vinham demostrar que os governos de Espanha e Portugal, junto com os seus respetivos exércitos, não eram para o povo chão de ambos os lados senão duas estruturas alheias que várias vezes por século se empenhavam em alterar uma paz na que cruzar o Douro não era ir ao estrangeiro.

Foram, claro está, guerras provocadas pola constante pressão espanhola sobre Portugal, essa teima que tem como eterno objetivo histórico a inclusão do país lusitano no âmbito hispânico. Algumas, como a ali conhecida como Guerra do Mirandum, persistem bem enraizadas na memória das pessoas de Miranda. O reconto desta guerra, tal e como sentimos fazer ao historiador local professor Hermínio Bernardo, é surpreendente por desconhecida deste lado da fronteira. Trata-se de um episódio da chamada Guerra Fantástica, que é à sua vez resulta ser a realização local da Guerra dos Sete Anos que sacudiu a Europa entre 1756 e 1763. Polo que a Miranda se refere, a guerra remata com desastre polas duas partes: a cidade de Miranda destruída por uma explosão inesperada num paiol de pólvora; Espanha derrotada humilhantemente e com perdas terríveis após uns movimentos estratégicos que resultam ser um fiasco, em caótica retirada sem que o exército português se visse necessitado de disparar um só tiro em campo aberto. Daí o fantástico da guerra e daí também, com toda a segurança, a escassa ou nula presença deste esquecível episódio histórico nos livros que aqui nos põem na mão.

Mas há mais cousas imprescindíveis no planalto mirandês, como a visita quase obrigada à localidade de Atenor, onde a associação AEPGA mantém e recupera com agarimo os dóceis burros da raça mirandesa. E, finalmente, tampouco se pode perder, se houver a ocasião, o presenciar uma atuação de jovens e vigorosos dançantes pauliteiros, que ao som da gaita comunicam com poderio a vontade de persistência no tempo das tradições dessa terra singular de Miranda de l Douro, tão vizinha nossa.

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