21:31 Mércores, 14 de Novembro de 2018
Terra e Tempo. Dixital Galego de pensamento nacionalista.

16-10-2018

Se is significa algo similar a “gelo” nas línguas germânicas e algo como “corrente de água” nas célticas podemos concluir que ambos os significados têm continuidade semântica por relação de causa-conseq

Os rios do gelo, rios brancos

Valorar (2)

HENRIQUE EGEA LAPINA



Islândia é um país europeu situado muito próximo do polo norte. O seu nome, derivado diretamente do idioma islandês, significa terra (land) de gelo (is). Não foi nem o primeiro nem o único nome que teve a ilha-país mas esse é outro assunto.

O elemento is serve para designar o gelo também nas outras línguas escandinavas. Em alemão eis, inglês ice, neerlandês ijs pronunciado nos três idiomas [‘ajs] transcrito segundo o APhI [Alfabeto Fonético Internacional].

O termo germânico, a pesar da duplicidade de pronuncias, parece emparentado com o termo gaélico e, em geral, das línguas célticas IS para denominar águas e correntes. Existem diversos rios com este elemento na composição do seu nome na Europa (antiga Gália, Hispânia e mesmo Germânia) onde os povos célticos tiveram assento.

A coincidência fónica e a aplicação a correntes de água permite-nos afirmar que o elemento Is- combinado com diversos sufixos ou morfemas compõe o nome de rios de origem glaciar ou quando menos de desgelo.

Vejamos alguns exemplos:

a)      Isère

O rio Isère, afluente pola esquerda do Rhône ou Ródano, tem este elemento no seu lexema. Em Franco-provençal e ocitano o nome é Iséra. O nome testemunhado na antiguidade foi Isara.

Na entrada correspondente em espanhol da Wiki afirma-se que Is significava “ferro” em céltico (seja o que for este céltico). Noutro apartado da mesma enciclopédia referido ao mesmo rio afirmam não ser nome céltico, sem dar o menor argumento, e significar “impetuoso”. Duas hipóteses (afirmadas como verdades absolutas) sem a menor justificação num médio tão popular como é a enciclopédia de enciclopédias!

O rio dá nome a várias localidades e um departamento alpino da República Francesa (Isère). No val-d’Isère, nos Alpes da Savoia, achamos outros topónimos como Col-de-Isère onde se pratica o esqui como atividade desportiva. De certo este lugar alto com neve mais ou menos permanente é a cabeça do rio que lhe dá nome na forma atual do francês e que o recebe del (polo sufixo -ere tão comum nas línguas célticas e latinas com o significado “com a qualidade de” ou “próprio de”). Assim Isère teria o sentido primitivo de corrente “com a qualidade do branco-gelo” ou corrente “própria do gelo”.

b)      Isar

Isar é um termo que designa, como mínimo, três realidades relacionadas em certo modo com o que tratamos dos rios. Por um lado, é um rio da Babaria (na Alemanha). Por outro serve para designar um concelho castelhano e uma montanha também entre Castilha e Cantábria (ambos os dous na Espanha).

O importante rio de Babaria pronuncia-se grave [‘izar]. Nasce num lugar chamado Eiskarlpitze e atravessa Munique antes de verter no Danúbio. Sobre a origem do seu nome a Wiki diz que significaria rio torrencial ou, segundo uma nova teoria, simplesmente rio. O nome do monte onde nasce, com o elemento EIS- gelo, como formante, ratifica a relação óbvia deste rio com o gelo e a sua origem num glaciar. O rio conserva o nome céltico e a montanha recebeu um nome claramente germânico.

O concelho da província de Burgos, a 23 km ao oeste da capital provincial, recebe o seu nome, pronunciado agudo [i’zar], segundo a entrada na Wiki, de yessar, quer dizer terreno abundante em gesso, material que se extraía no concelho desde época imemorial. Não sei ao certo como justificaria o autor desta entrada que a forma ditongada yessar pudesse dar Isar. Eu inclinaria-me, com o apoio das teorias linguísticas, polo contrário. Isar é o termo originário para yessar, local cheio de gesso, mas teria de ser grave para que ditongasse e ter passado por uma pronuncia com “e”. Mistérios do espanhol de Burgos!

Tal vez o motivo desta proximidade sonora seja a coincidência na aparência branca do gesso e do gelo. Com todo a etimologia de gesso dificulta fonologicamente a possibilidade de Isar como forma romance. Pois o termo derivaria de um latinório Gypsum derivado do grego γυψός [güpsós]. Em fim o latim sempre é a explicação para tudo.

Do monte na Cordilheira de Cantábria não consegui informação. Lástima. Seria interessante saber se o monte tem neves perpétuas ou um glaciar que o caracterize.

  c)       Ésera

O Ésera é um afluente do Cinca e este, por sua vez é-o do Ebro. Na sua entrada da Wiki em espanhol diz que o seu nome parece ser de origen celta, similar al de los ríos Isar (Alemania-Austria), Jizera (República Checa), Isère (Francia), Isel (Austria) Ijssel (Países Bajos) e Isarco (Italia). Define o rio como tipicamente pirineaico, quer dizer, de montanha, alimentado por la fusión del glaciar del Aneto y la alta pluviosidad de su cabecera. Acho inecessário acrescentar mais à descrição. Por outra parte, em espanhol a mudança de timbre da vogal não é inusual nos casos de “is” latinos ou pré-latinos átonos, como em Hispánia > Espanha, directu(m) > derecho, por exemplo. No caso de vogal tónica é inusual mas podemos hipotetizar que este nome estaria influído, se não derivado diretamente, do termo céltico para designar uma cascata (esach), fenómeno que acho não ser alheio ao rio pirenaico e que acostuma amostrar escuma branca.

  d)      Isábena

Afluente do Ésera nasce entre os picos “Gallinero” e “Sibollés” e corre por um cauce formado por caborcos e fozes, o maior deles o “Congosto de Obarra”[1]. O seu caudal vem marcado polo abundante desgelo do sistema pirenaico, segundo a fonte das fontes, Wikipedia, em espanhol.

e)      Izotz

É um rio. Esta forma do éuscaro, Izotz, aponta a um parentesco antigo com um termo como iso ou ise que nas línguas que mantêm a diferença, teriam pronuncia de fricativa alveolar sonora, transcrita na APhI como /z/

Um recordatório fonético-fonológico. Nas línguas de Europa em geral, com excepção feita do espanhol (e o português da Galiza ao que o espanhol serve de modelo) os esses intervocálicos como os dos nossos hidrónimos e orónimos pronuncia-se como esse sonoro representado no APhI como /z/. Até o séc. XVII, também o espanhol tinha este fonema assim que mesmo que a grafia poda resultar enganosa falamos do mesmíssimo lexema -IZ-

Conclusões:

Se is significa algo similar a “gelo” nas línguas germânicas e algo como “corrente de água” nas célticas podemos concluir que ambos os significados têm continuidade semântica por relação de causa-consequência.

Eis a minha hipótese confirmada polos dados. O is céltico não designa qualquer rio mas um tipo de rio específico, o que se forma dum neveiro ou dum glaciar e portanto com águas frias e, por vezes, com massas de gelo (branco) nas suas correntes. Certo que esta circunstância é hoje pouco ou nada frequente por ação do aquecimento climático mas deveu ser determinante numa altura (que podemos datar em vários milénios antes de cristo) em que o clima era bem menos benévolo.

Doutras interpretações do elemento léxico is em boa lógica e a falta duma hipótese melhor, considerar que um rio de montanha que baixa impetuoso polo desgelo da primavera recebe o seu nome do impetuoso caudal é uma dedução e mesmo uma translação semântica possível e mesmo lógica, mas com certeza não é o seu significado inicial.

  O pedregal de Irímia

De todos é conhecido o facto de ser a fonte do rio Minho um lugar chamado o pedregal de Irímia. O lugar foi ocupado noutrora por um glaciar que deixou a morena de coios que hoje denominamos pedregal.

Tem a ver o topónimo Irímia com o nosso -IS- ou -IZ-? Acho que sim.

Não é raro desde o tempo do latim e habitual no nosso idioma o rotacismo. Quer dizer a pronuncia dum esse (sonoro em origem como este ou sonorizado por contexto diante doutra consoante sonora) como “ere”. Como exemplo desse fenómeno a pronuncia popular de locuções tão comuns como “todos os dias”, “as nenas” ou “os mesmos” como  “todoloR dias”, “aR nenas” ou “oR meRmos”. No último temos um exemplo de rotacismo interno a unha palavra com um fonema próximo do “i” originário de IS- que por vezes muda em “e” (Ez-) o que nos diz que devia ser um “e” pechado que o gaélico (e suponho que outras línguas célticas) tinha e ainda tem.

Pois assim deveu ser a transformação dum hipotético *izim(ia) galaico (com um significado de corrente [“im-“ ou “um-“, numa alternância que não posso explicar] procedente do gelo) passou a ser Irímia.



[1] O termo congosto, de certo uso na área pirenaica de Aragão para designar caborcos e gargantas formadas por rios, tem o seu correlato no galego-português congostra (caminho fundo e estreito entre dous muros ou ribaços de terra) de provável origem galaica, não latina. No caso da forma aragonesa parece ter-se modificado para assemelhar-se a angosto (estreito).




Engade o teu comentario:

Os campos marcados con* son obrigatorios.









Aniversario Moncho Reboiras 2017


© Fundación Bautista Álvarez de Estudos Nacionalistas
Terra e Tempo (ISSN 1575-5517)
Avenida de Lugo, 219, 1º, 15703 • Santiago de Compostela • Galiza
981 57 02 65 – info#code#terraetempo#code#gal