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07-07-2018

A “crise dos emigrantes” é na verdade a crise de um sistema económico e social insustentável.

Neocolonialismo e “crise dos imigrantes”

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MANLIO DINUCCI



Dos EUA à Europa, a “crise dos emigrantes” suscita vivas polémicas internas e internacionais sobre as políticas a adoptar a propósito dos fluxos migratórios. Entretanto, em todo o lado estes são representados segundo um cliché que inverte a realidade: o dos “países ricos” obrigados a sofrer a crescente pressão migratória dos “países pobres”.

Dissimula-se assim a casa de fundo: o sistema económico que no mundo permite a uma restrita minoria acumular a riqueza à custa de uma crescente maioria, empobrecendo-a e provocando desse modo a emigração forçada.

No que diz respeito aos fluxos migratórios em direcção aos EUA, o caso do México é emblemático. A sua produção agrícola afundou-se quando, com o NAFTA (o acordo norte-americano de “livre” comércio), os EUA e o Canadá inundaram o mercado mexicano com produtos agrícolas a baixo preço graças às suas próprias subvenções públicas. Milhões de camponeses viram-se sem trabalho, vindo assim engrossar a reserva de mão-de-obra recrutada nas maquiladoras: milhares de instalações industriais ao longo da fronteira em território mexicano, possuídas ou controladas, na sua maioria, por sociedades dos EUA, em que os salários são muito baixos e os direitos sindicais inexistentes.

Num país em que cerca de metade da população vive na pobreza, aumentou a massa dos que procuram entrar nos EUA. Daí o Muro ao longo da fronteira com o México, iniciado pelo presidente democrata Clinton quando a Nafta entrou em vigor em 1994, continuado pelo republicano Bush, reforçado pelo democrata Obama, o mesmo muro que o republicano Trump quereria agora completar em toda a extensão dos 3.000 Km de fronteira.

No que diz respeito aos fluxos migratórios em direcção à Europa, o caso de África é emblemático. É riquíssima em matérias-primas: ouro, platina, diamantes, urânio, coltan, cobre, petróleo, gás natural, madeiras preciosas, cacau, café e muitas outras.

Estes recursos, explorados pelo velho colonialismo europeu com métodos de tipo esclavagista, são hoje exploradas pelo neocolonialismo europeu apoiando-se em elites africanas no poder, uma mão-de-obra local de baixo custo e um controlo dos mercados internos e internacionais.

Mais de cem empresas cotadas na Bolsa de Londres, britânicas e outras, exploram em 37 países da África subsariana recursos mineiros de um valor de mais de 1.000 milhares de milhões de dólares.

A França controla o sistema monetário de 14 ex. colónias africanas através do Franco CFA (originalmente acrónimo de “Colónias Francesas de África, reciclado em “Comunidade Financeira Africana”): para conservar a paridade com o euro, esses 14 países africanos devem entregar ao Tesouro francês metade das suas reservas monetárias.

O Estado líbio, que queria criar uma moeda africana autónoma, foi demolido pela guerra em 2011. Na Costa do Marfim (da área CFA), empresas francesas controlam o fundamental da comercialização do cacau, de que o país é o primeiro produtor mundial: para os pequenos cultivadores sobram a custo 5% do valor do produto final, ainda que a maioria viva na pobreza. São apenas alguns exemplos da exploração neocolonial do continente.

A África, apresentada como dependente da ajuda externa, fornece ao exterior um pagamento bruto anual de cerca de 58 milhares de milhões de dólares. As consequências sociais são devastadoras. Na África subsariana, onde a população ultrapassa o milhar de milhões e se compõe de 60% de crianças e jovens com idades compreendidas entre os 0 e os 24 anos, cerca de dois terços dos habitantes vivem na pobreza e, entre eles, cerca de 40% - ou seja 400 milhões – vivem em condições de pobreza extrema.

A “crise dos emigrantes” é na verdade a crise de um sistema económico e social insustentável.



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