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Terra e Tempo. Dixital Galego de pensamento nacionalista.

16-06-2018

Sem trabalho de formação, de sedução não há nem vai haver votantes que escolham a opção cada vez mais difícil

Já não temos tempo de equivocar-nos

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HENRIQUE EGEA LAPINA



A construção duma sociedade galega autocentrada e consciente de si e das suas capacidades está resultando um processo de autoliquidação.

Quando os nossos devanceiros do Rexurdimento iniciaram o projeto galeguista tinham umas circunstâncias escassamente semelhantes com as nossas e umas condições relativamente piores, nomeadamente no plano político. Eis o motivo do non nos entenden, non!

Por “circunstâncias” entendo a situação do povo trabalhador, faminto e analfabeto, mas profundamente galego, mesmo ao seu pesar. Hoje como naquele tempo a emigração é a solução a uma população excedentária pola falta endémica de trabalho no país. O da galeguidade  poderia matizar-se bastante para hoje.

O passo do tempo e a criação duma consciência nacional, há cem anos já, nas elites intelectuais não deu como resultado uma resposta consoante na sociedade. Tal vez o discurso galeguista e nacionalista chegava com dificuldade à sociedade.

Trás o arrase da Guerra dos fascistas contra os povos (a mal chamada, na minha opinião, Guerra Civil) e os 40 anos de ditadura Franquista as esperanças de que um povo motivado, relativamente letrado e ansioso de liberdade assumisse a sua identidade como forma própria de se manifestar no mundo ficaram em água de bacalhau nestes outros 40 anos de restauração borbónica.

Como é possível que em democracia (quando menos com possibilidade de votar e opinar, se a opinião não é muito discordante do modelo, claro), como é possível, digo, que a desnaturalização dos galegos tenha alcançado tais níveis? A resposta a esta pergunta é bastante complicada e difícil. Deixem que faça umas reflexões, tal vez ingénuas, mas pode que resultem interessantes para alguém.

Está claro que a inércia é uma força poderosa, arrasadora. O processo iniciado há vários séculos mas acelerado exponencialmente nas últimas décadas vai afetando na massa social do nosso país. A esta tendência, à que nunca se fez fronte de forma real, também devemos engadir (seguindo um discurso bem-pensante) a carência duma política linguística real do poder autonómico e dos poderes locais. Tal vez esta explicação peque de ingênua porque o poder político autonómico tem uma política linguística..., e cultural em geral, só que tem o objetivo inverso ao que os galeguistas desejaríamos.

Mas a maioria galegofalante avala a política que se faz contra eles com tal de sentirem-se aceitados e aceitáveis pola madre-pátria-espanhola. E esta política cultural, em parte fundamentada polo apoio político dos votantes ao processo de colonização económica e cultural (um dos paradoxos do nosso país), fingiu, simulou, com uma alta capacidade de engano, que aplicava medidas corretoras para promover (ao 50% claro está, bilinguismo equilibrado ante todo) a nossa cultura.

Assim estabeleceu uma normativa do idioma aplicada com feroz zelo de converso contra os seus transgressores, umas instituições académicas que simulam opor-se ao poder político em quanto lhes lambem os pés, uma promoção do livro galego perversa que beneficiava o editor (com incremento exponencial das unidades de editor) em detrimento do leitor (que foi descendo ao passo que aumentava a alfabetização) e de passo convertia em produto cultural válido a mais infame obra literária, uma televisão pública que se afasta voluntariamente dos trilhos da modernidade para se centrar numa população, ao mínimo, sexagenária, uma política teatral de grupos controlados ou uma política musical, a golpe de jacobeus macro-concertos gratuitos -que marcam o que a gente quer ver porque é grátis-. Em resumo, para acabar com o rosário das nossas claudicações, uma cultura subvencionada que acaba por estar sequestrada e domesticada com as rédeas do dinheiro público ao serviço dos que estám aqui para liquidar o que fique de nós.

O pior de tudo foi (e ainda é) que galeguistas convencidos e bem-intencionados, nacionalistas sisudos acharam, e ainda acham, ser este o caminho natural... Tal vez ao confundir a utopia do estado socialista que promove a nossa cultura com a anémica autonomia espanholizadora que vivemos na realidade. Acham que este é o único caminho, o caminho que lhes impõe o poder colonial baixo aparência de que são eles mesmos a eleger. Aceitar que somos uma colónia em todos os aspectos da vida e que com essa formulação devemos fazer o que nos permitam fazer.

Mesmo alguns acham, no plano linguístico concretamente, que uma normativa subsidiária do espanhol (mesma ortografia com pequenas adaptações, para dissimular; mesmo sistema de acentuação; muito similar escolha verbal; subordinada seleção léxica...) é um ato de afirmação nacional (e que nos mantém afastados do português que é o inimigo, como todo o mundo sabe, desde que nos abandonaram alá polo século XII (leia-se com ironia). Tal vez por isso atacam com fúria os reintegracionistas que pretendemos desvincular-nos do espanhol adotando para o nosso idioma uma forma internacional e não de região de Espanha. No fundo a limpa de cérebros do franquismo foi bastante eficiente!

E como amostra um exemplo em forma de pergunta retorica para nos retorquir a nos mesmos: Quantos dos que por acaso lerem este artigo adquirem a sua cultura na língua de Camões (como dizia o imarcesível Fraga)? Quantos não leem Saramago, prémio nobel do nosso idioma, na versão espanhola? Quantos leem sobre física ou motor na nossa língua? Quantos que têm livros portugueses ou brasileiros nas suas baldas podem afirmar que é a maioria do seus acerbo? Porque podo assegurar, sem temor a errar, que a maioria das nossas estantes de livros, a minha incluída, contam com mais títulos em espanhol do que galegos ou portugueses.

As nossas livrarias (as que vendem livros) estão a transbordar de livro espanhol, é verdade. A compra de livros na forma internacional do nosso idioma era complexa até se inventar a internet. Mas a realidade é que os galegos lidos somos, culturalmente, uma criação colonial de Espanha.

Ainda mais... Acreditamos no jogo “democrático” deixando à iniciativa do poder colonial (quer dizer da Xunta) o trabalho de regaleguizar os galegos. E tenho para mim que com a convicção íntima de que algum dia venceremos nós e chegaremos ao poder. Mas como assim se não há uma maioria de votantes dispostos a acreditar nas opções nacionalistas? Sim, em determinadas conjunturas há vitórias parciais mas mesmo estas são em contextos que deveriam ser-nos muito favoráveis como a corrupção-narcotráfico que campa no nosso país.

Na minha humilde opinião, o galeguismo tem errado o caminho porque, convencido de ter a ração, não acreditou ser necessário manter um permanente labor de formação, de ideologização dos potenciais eleitores. Esse trabalho enfadonho que nos anos finais do franquismo era o único que se podia fazer e creio lembrar que se fazia (ainda que pode ser uma lembrança criada a posteriori). Para convencer a outros há que ter argumentos, é claro, mas não apenas tê-los, há que saber transmiti-los, explicá-los, exemplificá-los sem soberbas nem sobre-entendidos porque cada geração há de ser informada cada vez, cada geração vem ao mundo limpa de experiências prévias e desconhece o que é evidente e óbvio para os que viveram esses momentos.

Sem trabalho de formação, de sedução não há nem vai haver votantes que escolham a opção cada vez mais difícil, mais traumática e sempre marginal do galeguismo, seja qual for a sua cor. E esse trabalho de atração deve orientar-se, principalmente, mas não unicamente, nos mais novos. Os meninos em idade de escolarização infantil deveria ser o nosso objetivo. O país constrói-se desde abaixo. Os cães velhos não apreendem truques novos! Mas nos últimos 40 anos a única iniciativa neste sentido com algo de impulso foram as “galescolas”. O mesmo nome é um indicador de duas carências ideológicas, a saber...

A primeira a imitação das ikastolas que se calhar não é muito criticável ainda que cérebros há no país para pensar modelos autóctonos para um país único polo seu sistema de povoamento e a sua proporção de adultos-meninos... A segunda, a necessidade de marcar o próprio com o nosso nome: gale- de galego... A cousa está tão mal que para estar em galego algo temos que enunciá-lo porque não se dá por descontado. Se estamos na Galiza tudo é gale-algo ou deveria sê-lo (sei que alguns acreditam não ser galego isto que leem, então como é que o entendem?). Outro exemplo: nos centros de estudos, quer ceipes ou ieses, os professores da língua do país (da língua própria) son (somos que eu também o sou) los de gallego mentres que os professores da língua colonial son los de lengua. Eis um indicador esmagador da situação subalterna do idioma (para o novo ministro de Justiça, dialecto) próprio da Galiza.

Pois bem, aquele projeto das Galescolas, convertidos hoje em Galinhas azuis (nome tomado dum colaboracionista como poucos desde os seus cargos na editorial) são maioritariamente transmissoras da língua oficial do reino. Sei que o projeto era do governo bipartito e, portanto do pouco estado que temos para autogerirmos. Mas existe a iniciativa privada. E compre que comecemos a tirar mão dela. Não para enriquecimento privativo, mas para serviço comunal dos sócios. Veja-se o exemplo das escolas infantis Semente.

Os brinquedos para os nossos filhos e netos estão a transbordar de simones espanholes para melhor colonizar as suas mentes. A televisão, os computadores, a vida toda desenvolve-se em espanhol arredor de nós sem que fagamos grande cousa para evita-lo. Votar cada quatro anos e queixar-nos, muito de mais, sem tomarmos iniciativas. A penas uns poucos tomam o trabalho sobre as suas costas. Seria bom que iniciativas como Queremos Galego gerisse um projeto concreto para além de exigir ao poder que exerça a função que lhe marcam as leis mas que não querem assumir.

Se de verdade queremos sobreviver como povo – sequer como minoria- os que temos ideologia deveríamos reconsiderar o que se fiz até agora, fazer autocrítica e começar a trabalhar sem aguardar a que cheguem os tempos dos bardos... Por que se não trabalhamos em projetos reais e concretos com constância, sem depender do poder colonial, sem pretender ser esse poder, os tempos ficaram apenas como a ilusão dum poeta, mortos. Como diz Lluis Llach fe no és esperar, fe no és somniar, fe es penosa lluita per l’avui i pel demà.... Há que fazer o futuro com feitos. el camí és llarg /i ja no tenim temps d'equivocar-nos.  




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