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15-05-2018

Em conjunto, os ocidentais somos um perigo. A hipocrisia acha-se em quantidades industriais no ADN da nossa cultura política

Enxurrada de hipocrisia no fim da violência

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MIGUEL RODRÍGUEZ CARNOTA



Uma inocente piada infantil contava a história de um indivíduo que morre e vai ao inferno. Ali, um dos demos abre uma porta e apresenta-lhe a sala do lume eterno na que há de passar a eternidade. Assustado polas lapas, o indivíduo pergunta se não há alternativa a tamanho sofrimento. ‘Há’, diz o demo, e abre-lhe uma outra porta que o leva a uma outra sala contígua onde os condenados nadam numa piscina de merda. “Isto pode não ser tão terrível”, pensa, e escolhe ficar ali. Minutos mais tarde, quando o nosso indivíduo descansa bastante tranquilo flutuando naquele elemento e procurando manter sempre a cabeça fora, um impressionante barulho chega aos seus ouvidos. “Aí vem! Aí vem!”, berram desesperados os colegas. O condenado alça a cabeça e vê o gume de uma coitela gigante a dirigir-se a toda velocidade contra o seu pescoço. Não há alternativa. Há que meter a cabeça lá dentro e tragar com o que seja. E assim uma e outra vez, até o fim dos tempos.

O conto de tão singular piscina vem-me muitas vezes à cabeça, especialmente quando vejo a gente a tragar os discursos infumáveis que nos chegam polos meios. Olha os de sempre na tele, falando da sua vitória sobre os violentos como se eles nunca romperam um prato! Esfrega os olhos e abre os ouvidos: os que pontificam são os mesmos que desenham, excutam e apoiam as guerras dirigidas a destruírem países inteiros para assegurar os fluxos de petróleo cara os seus países e de dinheiro cara os seus petos. O mesmo estado, os mesmos partidos, as mesmas pessoas. Os donos da violência maiúscula contando-che com cara de anjo quanto amam os direitos humanos e quanto desejam a resolução pacífica dos conflitos.

Cuidado com eles, cuidado connosco. Em conjunto, os ocidentais somos um perigo. A hipocrisia acha-se em quantidades industriais no ADN da nossa cultura política. A democracia ateniense era tão democrata que excluía mulheres, escravos, menores e metecos. A Revolução Francesa derivou em guerras imperiais ao estilo clássico. A Declaração de Independência dos EUA estava sobretudo orientada a acabar a sangue e fogo não apenas com a independência, mas com a própria existência das múltiplas nações que ocupavam desde sempre aquele vasto território. Hoje dedicamo-nos a repartir democracia através de F16, de drones Predator e mísseis Tomahawk. E a proclamar que vencemos a violência aqui mentres mandamos aviões ali a deixar bairros inteiros reduzidos a cinzas. Um dado histórico recente e já totalmente esquecido: há hoje dezanove anos a força aérea espanhola, pagada com os nossos impostos, participava junto com os aliados no inútil bombardeio de Belgrado e matava em poucos dias a mais civis inocentes que ETA em toda a sua história. O socialista Javier Solana comandava politicamente a operação desde Bruxelas.

Que lhe importará a uma nena iraquiana se o terrorista que lhe rebenta a casa com a família dentro leva uniforme ou não, ou se atua sob uma ou outra escusa, chame-se a democracia, os direitos humanos, qualquer religião ou a busca de inexistentes armas de destruição maciça. Os mortos que nós matamos são sempre menos mortos que os mortos que outros nos matam. Os nossos mortos têm rosto, nomes e apelidos, parentes e amigos, sentimentos, trajetórias vitais e profissionais. E têm quantidade. Podemos dizer “mataram-nos tantos” ou “mataram-nos quantos”. São pessoas contáveis. Os seus mortos, os mortos que nós matamos, não têm nenhuma destas cousas. Nem número sequer, por muito que, a pouco que pensemos, tiremos a conclusão de que multiplicam por cem ou por cem mil os que ETA provocou inutilmente. Os mortos que nós matamos vivem tão longe que não chegam a ser gente, e por isso cabem tão bem debaixo da alfombra.

Olha-os de novo na tele, contando-che agora que eles não são como os outros, os que por questionarem a sua globalização possuem uma visão pacata e tendenciosa da realidade. Que não são como os que só miram para o seu embigo, para os que não existe mais realidade que a que marcam as suas estreitas fronteiras, físicas e mentais. Que eles não são os sectários porque possuem uma compreensão global e superior de tudo o que sucede no planeta. E pasma ante tal alarde de impostura.

Enfim, que o conto da piscina resultou ser mais profético do que eu imaginava. Pagamos a nossa posição com a obriga de tragar o que não queremos quando eles o decidem. O lume é para outros, para nós esse relativo conforto de nos manter às vezes aboiando, às vezes mergulhados à força neste mar de hipocrisia. Haverá que se seguir esforçando por manter a cabeça fora da lama. E por fazer, de quando em vez, algumas incómodas comparações.   


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