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16-04-2018

Qual o motivo de Raimundo se aventurar para o sul com a hoste completa de nobres galegos?

A expedição de Raimundo a Lisboa

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HENRIQUE EGEA LAPINA



A Historia Compostellana, a pesar de estar redigida em latim, é um dos grandes monumentos da nossa cultura. Um dos motivos, para mim, é que ao abrir o volume e ler, ao chou, um pode achar pequenas joias que, numa leitura ordenada e continuada podem passar desapercebidas.

A História Compostelã foi redigida por vários autores (três ou cinco segundo os estudiosos) ao longo dos anos, durante o bispado (depois arcebispado) de Diego II Gelmires para ressaltar as consecuções deste homem de religião que “elevou” Compostela, e de passo a si próprio, aos mais altos níveis dentro da Igreja Católica Apostólica e Romana.

Uma dessas pequenas joias é a referência a uma expedição militar do então conde da Galiza, dom Raimundo de Amous, mais conhecido como Raimundo de Borgonha. Concretamente no capítulo 53 do libro 2º da História Compostelã. Nesse capítulo começam a relatar-se, sem pormenor, as intervenções divinas em favor do protagonista em diversos momentos da sua vida. A que dá título ao capítulo, quando ainda novo, durante uma expedição do seu senhor o conde Raimundo. Para quem não conhecer o conde vou fazer uma breve apresentação.

Raimundo de Amous

Como resultado da política matrimonial e religiosa de Afonso VI (o rei do Cide que “herdou” o reino de Castela à morte do seu irmão Sancho e o da Galiza após apresar o seu irmão Garcia), como resultado dessa política matrimonial, digo, Raimundo de Amous, da casa condal do Condado de Borgonha, no Império, casou com a única filha legítima viva do monarca, Urraca.   Ela era filha doutra nobre Borgonhesa, Constança, da casa ducal de Borgonha, no reino da França, estreitamente emparentada com a família real da França e com o abade de Cluny, Hugo. Este foi, de facto e durante médio século, a cabeça da igreja católica romana e da sua política centralizadora chamada Reforma Gregoriana.

Acostuma-se a estabelecer também certo parentesco entre Raimundo de Borgonha e Henrique de Borgonha (o primeiro conde de Porto-Cale) mas nada permite emparentá-los, salvo por vínculos de matrimónio. As duas Borgonhas eram territórios fronteiros mas estavam baixo diferentes soberanos e com famílias nobiliárquicas também diferentes.

Voltemos a Raimundo. Da data e as circunstâncias em que Raimundo de Amous chegou à Península há muito escrito e muito contraditório. Eu acho, por causas que seria longo de relatar aqui, que Raimundo chegou ao reino de Afonso para desposar Urraca no ano do seu matrimónio: 1090. Nesse mesmo ano morrera também dom Garcia, rei da Galiza, prisioneiro do seu irmão por 18 anos. A morte de Garcia deixava a Afonso como único herdeiro do reino que os seus progenitores dividiram, incompreensivelmente para a maioria de historiadores, em três reinos (um, Castela, de nova feitura) e repartiram entre os seus filhos varões de jeito pouco explicável.

A ação política que segue ao matrimónio entre Raimundo e Urraca justifica, até certo ponto, a datação da sua arribada e abre uma nova interrogante na nossa história que, graças ao fado, ficou sem responder. Parece que o deus dos católicos romanos tratava de evitar qualquer inconveniente ao predestinado reino de Castela. Cal é essa ação política? Pois nem mais nem menos que ceder a Raimundo e à sua jovem esposa o reino de Garcia com título de condes mas como poder autónomo que o mesmo Raimundo pretende de origem divina nalgum dos seus documentos conservados. Sobre este assunto, tal vez, venham novas entregas, mas aclarar isto levaria texto de mais para o formato.

Mas voltemos ao assunto da expedição de Raimundo ao sul, a Lisboa.

O texto do capítulo 53 do livro II da História Compostelã diz o seguinte:

Quando o mesmo arcebispo, antes do episcopado e depois da primeira administração do domínio de São Tiago, estava no cerco, em companhia do Conde Raimundo e os nobres da Galiza, com a intenção de estirpar a perfídia dos Gentis, os sarracenos, com homens recolhidos de toda a parte, numa imensa multidão de guerreiros, atacaram os acampamentos dos Cristãos que arrodeavam as proximidades de Lisboa. Tal a multidão de gente infiel, tais os batalhões de bárbaros confluíram no ataque para perdição dos cristãos. Depois, quando uns cristãos caíam e outros eram apresados, o mesmo [arcebispo] inerme, protegido da multidão de mísseis, de tanta efusão de sangue pola destra do onipontente evadiu-se do centro mesmo das mãos dos sarracenos, livre e incólume.

Como parece deducir-se do texto da História Compostelã, o exército galego ficou dizimado mas Gelmires foi capaz de salvar-se da derrota, apesar de estar desarmado, pola intervenção do altíssimo. Isto forma parte da propaganda de corte hagiográfica que a H.C. dedica a Gelmires.

Persoalmente, e a falta de mais provas, não creio que a derrota fora excessivamente significativa e cumpriria uma investigação detalhada da documentação conservada para comprovar a substituição dos mortos em combate. Mas muitos consideram esta derrota como a causa da chegada ao reino cristão do conde Henrique, conhecido como Henrique de Borgonha. Este jovem nobre era sobrinho de Constança, sobrinho-neto de Hugo e futuro conde de Porto-Cale por matrimónio com dona Teresa (filha bastarda do rei Afonso). Isto é, Henrique vai se fazer com a parte central do reino da Galiza e com o território de Coimbra onde governava com total independência um personagem escuro e misterioso: Sisnando Davides, mas este é outro assunto.

O texto da H.C., de estilo bastante pesado, como era o gosto franco da época para o latim, aporta duas ideias claras. A primeira que Raimundo fizera uma expedição com os nobres da Galiza, os seus súbditos, (e aqui Galiza significa a franja do Cantábrico ao Mondego como mínimo) e que cercavam Lisboa.

O contexto da expedição

Qual o motivo de Raimundo se aventurar para o sul com a hoste completa de nobres galegos? Vejamos o contexto de Al-Andalus e das relações entre cristãos e mussulmanos antes e nessa altura.

No tempo em que Afonso conseguiu Toledo e o seu reino, em 1085, os reis das taifas sentiram medo. Até então, a permanente extorsão do rei cristão, primeiro Fernando (1035-1065) e Afonso despois, resultava molesta e, por vezes, preocupante. Na maioria dos casos ficavam por uma destruição controlada dos cultivos, incluídas árvores de fruta, a condução de gados para o norte. A troca de dinheiro era possível conjurar a avidez dos cristãos que se beneficiavam da debilidade militar dos mussulmanos. Para além dos monarcas e nobres hispânicos, dentre os cristãos, um dos mais beneficiados foi o abade Hugo de Cluny quem recebia uma suculenta soma de ouro, procedente das párias, cada ano, para maior glória da sua ordem e da igreja. Eis a fonte para a sua monumental igreja românica.

Os impostos crescentes, no intento dos sultães de sufragar o pagamento das párias, tiravam o afeto polos senhores do seu povo, se lho tinham, mas tudo ficava por uma perda de dinheiro e certa sensação de viver na corda bamba. Para mais incomodidade os senhores das taifas percebiam a progressão imparável dos almorávidas no norte de África, uns mussulmanos rigoristas que, tarde ou cedo, iam engoli-los e acabar com a vida regalada dos senhores andalusis. Para os senhores das taifas era preferível tratar com Afonso e os outros cristãos. Mas a queda de Toledo, no centro da Península, modificava o contexto.

Decidiram pedir ajuda a Iusuf ibn Taxufim, o Amir-al-Mamulim ou Califa dos almorávidas, quem passou o estreito com os seus soldados e obrigou os senhores das taifas a colaborarem despois de mais de 50 anos de guerras mútuas em que o cristão era o árbitro.

Um deles, Abd Allah ibn Buluggin, senhor de Granada, relata-nos com pormenor e subjetivamente as circunstâncias daquele processo. Os exércitos de Afonso e o de Iusuf lutaram, em 1086, nas proximidades de Badajoz (Sagrajas) onde os cristãos sofreram uma derrota memorável e o próprio Afonso saiu gravemente ferido. Iusuf não tirou proveito da vitória pois houve de retornar a África. Os senhores das taifas tiveram um respiro inicial e, de passo, suspenderam o pagamento das párias, mas não deixaram de se combater mutuamente com ajuda alternante dos cristãos.

Em 1090, à vista da nula colaboração entre os senhores das taifas contra o cristão (mais bem o contrário), Iusuf voltou à Península com intenção de castigar os reisinhos das taifas e incorporar ao seu império o território de Al-Ándalus. A conquista tomou o seu tempo. Os senhores foram forçados a abdicarem e julgados a critério do Amir. Uns foram desterrados como Abd Allah de Granada ou Al-Mu’tamid de Sevilha, outros condenados à morte como o senhor de Badalhouce por pedir ajuda aos cristãos contra o Califa. Al Mutawakkil ofereceu castelos (e cidades, Lisboa entre elas? Abd Allah não concreta) a troca do socorro e acabou por pagar com a vida, em dezembro de 1095, esta “colaboração” com os cristãos.

Neste ponto entra Raimundo e a sua expedição ao sul no contexto das guerras dos mussulmanos. O autor da H.C., pouco explícito no que atinge a assuntos políticos, concreta claramente que os cristãos estavam prope Olisbonam circundantes (arredor das proximidades de Lisboa). Podemos supor que o objetivo de Raimundo era “cobrar” o apoio ao rei de Badalhouce, Al-Mutawakkil, ainda que Lisboa e os seus arredores não pareciam estar dispostos a se entregarem, bem porque temiam ser exiliados das suas terras polos cristãos, bem porque temiam a reação do Amir dos Almorávidas quem enviou tropas para apoderar-se da totalidade do reino e, de passo, apartar os cristãos.

A partir desta data a relação com os cristãos ia ser muito mais tensa num constante processo de reconquista almorávida de territórios perdidos polos mussulmanos nas linhas do Tejo ocidental (do que acabamos de encarregar-nos), central e oriental e em València. As derrotas cristãs começam a debilitar a já delicada situação do reino cristão ocidental. Como prova a Batalha de Uclés onde os castelhanos e toledanos são corridos do campo de batalha e o adolescente filho de Afonso VI, Sancho, morre.

Raimundo sobrevive a aquela jornada e continua governando Galiza para além de assumir outras encomendas. O difícil de estabelecer é em que qualidade chega Henrique. Vassalo de Raimundo? Ou tal vez Afonso... ou Hugo definira uma nova segregação dos territórios da costa atlântica? E, se foi assim, a que criterios respondia?

O certo é que, ao morrer Raimundo (1107) antes do que o seu sogro (1109), os planos traçados em 1090 devem ser redefinidos. E para redefini-los segue-se o caminho da guerra. Entre os cristãos o conflito interno iria explodir passados uns anos e a consequências serão, entre muitas outras, a segregação de Portugal com a persoa de Henrique de Borgonha. Nunca mais a Galiza será um único território político!



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