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07-03-2018

Foi em 5 de Março, passaram

Cinco anos sem Hugo Chávez

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BRUNO CARVALHO


Bolívar desperta a cada cem anos quando desperta o povo, escreveu Pablo Neruda», foi o que me disse Rafael quando esperávamos juntos a chegada de Hugo Chávez nos arredores de Coro, em 2008. As imagens repetiam-se uma e outra vez. Onde quer que ele estivesse, aonde quer que fosse, a terra enchia-se da poeira dos passos das mulheres e homens com fome de justiça. Desse dia, lembro-me sempre de uma velha que trazia nos sulcos do rosto o incomensurável sofrimento a que toda aquela gente havia sido submetida durante décadas.

Eles não esquecem. Nunca esqueceram quem é que aos antepassados encheu as costas de vergastadas. Têm na ponta da língua os nomes dos heróis que arrastaram multidões e esmagaram tiranias. Homens como Guaicaipuro, o índio que liderou uma das primeiras revoltas contra os invasores espanhóis. O meu anfitrião era um ex-guerrilheiro que havia combatido nas montanhas da região nas Forças Armadas de Libertação Nacional (FALN), apoiadas pelo Partido Comunista da Venezuela, e que dera ao seu filho o nome de José Leonardo Chirino. O mítico zambo insurgira-se naquelas encostas, em 1795. Filho de uma indígena livre e de um escravo negro, conduziu uma poderosa revolta, que acabou com o seu corpo sendo esquartejado.

De vez em quando, um rumor atravessava a massa humana que bloqueava todas as ruas e avenidas. Nos telhados dos pisos térreos, soldados do corpo presidencial cerravam punhos e saudavam a população. Rafael falou-me também de Ezequiel Zamora. Se todos conhecemos o libertador de povos, o homem que abriu caminho à independência da maioria dos países da América do Sul, poucos sabem quem foi o insurrecto que incendiou o país com as ideias de terra para quem a trabalha. Depois da derrota do projecto de Simón Bolívar, Zamora encheu a esperança dos pobres e arrastou consigo também um índio guariquenho. Era Pedro Pérez Pérez, que fugiu para Ospino depois do assassinato do seu líder. No ventre de Josefa Delgado, o guerrilheiro do século XIX deixou a semente da revolta. O filho de ambos, Pedro Pérez Delgado, que ficou conhecido como Maisanta, tomou a bandeira do pai e levantou-se com os camaradas de quartel contra a ditadura do General Gómez. Acabou por morrer na prisão aos 44 anos. «Por que te cuento esto?», interrogou-me Rafael, «porque su bisnieto es el hombre que acaba de llegar». Nesse momento, um grito ensurdecedor irrompeu entre a multidão. Explodiam foguetes por todas as partes. A maré vermelha com dezenas de milhares de mulheres e homens movia-se como um só corpo. Entre aquela tempestade humana, subia ao palco Hugo Chávez, o bisneto de Maisanta.

Quando morreu, neste dia, há cinco anos, o mundo pôde observar, atónito, como um povo inteiro se acotovelava para despedir-se do comandante da revolução bolivariana. A imprensa ocidental tratava de ridicularizar os milhões que durante dias fizeram filas para ter os seus últimos segundos junto de Hugo Chávez. Essa imagem chocava com o funeral de Margaret Thatcher ou de outros representantes políticos dos grandes grupos políticos e económicos. As únicas ruas que se encheram no Reino Unido foram as que viram os trabalhadores celebrar a morte da bruxa que promoveu o vampirismo neoliberal. O herdeiro de Maisanta foi celebrado pelas massas que queriam agradecer que um dos seus tivesse resgatado o seu povo das garras de Washington, que, finalmente, todas as crianças pudessem comer mais do que uma refeição, que a saúde fosse acessível a todos, que se tivesse erradicado o analfabetismo e que a Venezuela tivesse passado para a vanguarda dos países com mais alunos a frequentar de forma gratuita o ensino superior.

Esta manifestação colectiva de pesar percorreu o mundo. Das Caraíbas ao Médio Oriente, de África ao Extremo Oriente. Na semana em que morreu Hugo Chávez, as paredes da Cova da Moura, na Amadora, encheram-se com mensagens de despedida. Só não chorou aquela Europa e aquela América loura e de olhos azuis que quer fazer da Venezuela outra vez colónia sua. Só não choraram os que agora falam de democracia e patrocinaram o golpe de Estado fascista que acabou derrotado pelo povo em 2002.

Hoje, quando o quadro político e económico é semelhante àquele em que afogaram o Chile de Salvador Allende, o imperialismo mobiliza todos os recursos mediáticos para mobilizar a opinião pública contra o processo bolivariano. Independentemente do que venha a suceder, a dignidade dos que lutam por romper com o capitalismo e por defender a sua soberania são a reserva moral da Venezuela. E como disse Hugo Chávez, «aqui no se rinde nadie, carajo».

ARTIGO PUBLICADO EN ABRILABRIL.PT

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