03:56 Sabado, 10 de Decembro de 2022
Terra e Tempo. Dixital Galego de pensamento nacionalista.

30-06-2016

Foram os operários, e mais geralmente o mundo do trabalho, os explorados, os dominados, que se revoltaram contra o projecto europeu

A União Europeia está morta

Valorar (5)

PIERRE LÉVY



Brexit! Acontecimento literalmente histórico.

Para as elites mundializadas, ele ultrapassa os piores pesadelos e era, na realidade, inconcebível.

Para aqueles que seguem atentamente a actualidade europeia, e estão conscientes da crescente rejeição popular que a UE inspira com muita razão, ele ao contrário era previsível.

Em primeiro lugar, uma constatação salta aos olhos. É verdade que uma parte da burguesia inglesa apoiou a opção de retirar o Reino Unido da União Europeia. Mesmo assim a clivagem é gritante: de um lado, as elites institucionais e políticas (e sindicais, com algumas louváveis excepções), a City, os bancos , os patrões das grandes empresas (1300 deles haviam lançado um apelo final dois antes do escrutínio) – e os meios urbanos abastados; do outro, os bairros populares, as cidades operários e os arrabaldes abandonados, as regiões desindustrializadas e no abandono.

É este fosso que acima de tudo determinou o resultado . Basta de resto ouvir as caçoadas odiosas que se jorram contra estes "meios desfavorecidos" dotados de "um nível de educação inferior", "irracionais e movidos pelo ódio". Este desprezo de classe, aumentado pelo despeito da derrota, diz muito sobre a natureza real do que estava em jogo.

O mesmo se diz da longa lista interminável dos membros da Santa Aliança que, durante meses, tudo tentou – em particular uma incrível chantagem do caos – para evitar o "cataclismo" anunciado: G7, chefes de Estado e de governo, ministros, dirigentes de multinacionais, banqueiros, agências de notação, OCDE, FMI... Os EUA obtiveram a palma quanto a isto, com uma visita especial a Londres do presidente Obama ...

Naturalmente, cada país tem a sua própria cultura política. Mas esta oposição entre os "do alto" e os "de baixo" da sociedade é uma constante que se reencontra em todas as consultas sobre a Europa. Pois este manguito dirigido a Bruxelas é o quarto em menos de um ano. Os gregos (Julho 2015) , os dinamarqueses (Dezembro 2015) e os holandeses (Abril 2016) já haviam pronunciado um Não atroador aquando dos referendos quanto à Europa.

Esta geografia social da recusa da integração europeia fora particularmente impressionando no referendo francês de Maio de 2005 que rejeitou o Tratado Constitucional Europeu (TCE). Um escrutínio que constituiu de certa forma um primeiro tremor de terra no seio da UE.

Na época, foram os operários, e mais geralmente o mundo do trabalho, os explorados, os dominados, que se revoltaram contra o projecto europeu de que se poderia resumir assim o objectivo mais essencial: retirar aos povos ("povos" no sentido político e não étnico) a liberdade de determinar as grandes escolhas que condicionam seu devir. A expressão mesmo de "comunidade de destino" (como se definiu a UE) diz tudo: proibição de fazer escolhas diferentes daquelas da "comunidade" e, sobretudo, o "destino" ultrapassa a vontade humana...

Deve-se notar de passagem que a mais alta distinção concedida pela União Europeia se chamae "prémio Carlos Magno". Uma escolha que diz muito sobre as ambições imperiais desta "construção" que foi, no após-guerra imediato, promovida activamente por Washington.

Esta vontade recuperar sua liberdade política colectiva – o termo jurídico é soberania, um conceito frequentemente caricaturado, quando se trata do próprio quadro da democracia real – tem a ver mais habitualmente com a aspiração colectiva do que com uma motivação explícita de cada cidadão. Verifica-se que os eleitores britânicos sem dúvida não se esqueceram de como foi espezinhado o Não francês ao TCE, assim como a maneira humilhante como foram tratados os irlandeses aquando da sua exigência – efectuados duas vezes – de recomeçar sua votação porque eles não haviam dado a boa resposta da primeira vez...

Um tal abuso de autoridade não foi possível com os ingleses. Estes acabam de entregar uma mensagem simples: pode-se ir embora. A consequência é certa: a União Europeia está morta. Unicamente a forma e a data da agonia são desconhecidas.

Em 1989, a queda do Muro de Berlim abria uma era em que os dirigentes ocidentais esperavam estender sua dominação sobre o mundo inteiro, privar os povos da sua liberdade e aproveitar para impor recuos sociais literalmente sem precedentes.

O que se segue não está escrito. Mas um formidável retorno da correlação de forças esboçou-se a 23 de Junho de 2016. Sugere-se a todos os progressistas que meçam a sua amplitude.

E o sentido da mesma.



Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .


-------------------------------------------------------------------------------------------------
Nota da Fundación Bautista Álvarez, editora do dixital Terra e Tempo
As valoracións e opinións contidas nos artigos das nosas colaboradoras e dos nosos colaboradores -cuxo traballo desinteresado sempre agradeceremos- son da súa persoal e intransferíbel responsabilidade. A Fundación e mais a Unión do Povo Galego maniféstanse libremente en por elas mesmas cando o consideran oportuno. Libremente, tamén, os colaboradores e colaboradoras de Terra e Tempo son, por tanto, portavoces de si proprios e de máis ninguén.



Engade o teu comentario:

Os campos marcados con* son obrigatorios.







© Fundación Bautista Álvarez de Estudos Nacionalistas
Terra e Tempo (ISSN 1575-5517)
Avenida de Lugo, 219, 1º, 15703 • Santiago de Compostela • Galiza
981 57 02 65 – info#code#terraetempo#code#gal

A Fundación recibiu unha axuda da Deputación da Coruña na convocatoria de 2018 para a mellora da utilidade de páxina web. Deputación da Coruña