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02-01-2011

A crise não destrói só riqueza fictícia, ela cria desemprego, diminui o PIB; destrói, portanto, a riqueza real

Financeirização e riqueza fictícia

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LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA



O enviado especial de "El País" ao Fórum Mundial de Davos encerrou seu trabalho com uma reportagem com o título "Davos assume a decadência do capitalismo à americana". Depois de tantos anos de exuberância especulativa e arrogância ideológica, está se tornando claro agora para todos quão perversa foi para os Estados Unidos a transformação das finanças em financeirização e a do liberalismo em neoliberalismo.

Depois dos "30 anos gloriosos do capitalismo" (1945-75), o capitalismo regrediu: passou a crescer menos, as crises financeiras tornaram-se mais frequentes, e a desigualdade aumentou, privilegiando os 2% mais ricos da população.

Mas, hoje, nada de grandes análises, e sim mais uma aula para Maria e para João. Este me pergunta: "Essa palavra financeirização que cada vez um número maior de pessoas usa -é a mesma coisa que finanças?".

Não é. A atividade financeira é necessária; a financeirização, sua distorção. Principalmente os bancos e as Bolsas de Valores têm um papel fundamental em qualquer sistema econômico. É por meio deles que os poupadores transferem suas poupanças para os empresários que realizam investimentos e promovem, assim, o desenvolvimento econômico. É por meio dos bancos e dos seus cheques e cartões de crédito que fazemos nossos pagamentos. O mercado só pode funcionar bem e a economia só se torna eficiente quando os bancos e as Bolsas realizam bem sua tarefa de financiar a produção. Já a financeirização é uma palavra cada vez mais usada para indicar que o sistema financeiro está deixando de cumprir a sua missão e passa a assumir um papel principalmente especulativo. Mais precisamente, a financeirização é a distorção do sistema financeiro que resultou da desregulação neoliberal do sistema financeiro. Tal desregulação tornou possíveis "inovações financeiras" que, em vez de facilitarem o financiamento da produção, produziram para seus inventores -os financistas profissionais- grandes comissões e bônus, e, para os rentistas, riqueza financeira fictícia.

"Então todas as inovações financeiras foram más?", pergunta João. Nem todas, mas muitas delas. Aparentemente elas pretendem dar mais segurança às finanças, mas afinal são uma forma que os financistas inventaram para tornar os rendimentos dos rentistas muito mais elevados que a taxa de lucro normal das empresas e a correspondente taxa de juros e, assim, justificar suas comissões. São mecanismos que aproveitam a desinformação e a insegurança dos investidores para realizar ganhos muito maiores do que o crescimento do PIB.

"Mas quem é que perde nesse processo? Se a riqueza está aumentando, parece que todos ganham", diz-me Maria. Durante algum tempo, todos parecem ganhar. É a euforia do boom. Mas, como a riqueza que está sendo criada é fictícia (o valor das ações nos Estados Unidos aumentou cerca de quatro vezes mais do que o PIB desde 1980), de repente a confiança desaparece e os preços dos ativos (ações, imóveis) caem verticalmente. É a crise destruindo a riqueza fictícia que havia sido criada pela financeirização -pelas inovações financeiras e a especulação. "Mas, afinal, parece que a crise destrói apenas riqueza fictícia", observa João. Tomara fosse assim! Na verdade, leva também boas empresas à falência, cria desemprego, diminui o PIB, destrói, portanto, a riqueza real. O pior, porém, é que provoca insegurança e sofrimento desnecessários para as pessoas.

(Folha de S.Paulo)

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